Quantas vezes, Amor, me tens ferido
Junho 12, 2017

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens curado?

Quão fácil de um estado a outro estado

o mortal sem querer é conduzido!

.

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,

como que até regia a mão do fado,

onde o sol, bem de todos, lhe é vedado,

depois, com ferros vis se vê cingido:

.

para que o nosso orgulho as asas corte,

que variedade inclui esta medida,

este intervalo da existência à morte!

.

Travam-se gosto, e dor, sossego e lida;

é lei da natureza, é lei de sorte,

que seja o mal e o bem matiz da vida.

amar-o-prc3b3ximo

Bocage

Como fazer-te saber que há sempre tempo?
Novembro 1, 2010

 

Que temos que buscá-lo e dá-lo…
Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…

Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?

 

Mario Benedetti  em  Dos Afectos