Os dias de Verão
Julho 7, 2018

Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

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Sophia de Mello Breyner Andresen    em    Obra Poética

Entre Março e Abril
Abril 4, 2013

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Que cheiro doce e fresco,

por entre a chuva,

me traz o sol,

me traz o rosto,

entre Março e Abril,

o rosto que foi meu,

o único

que foi afago e festa e primavera?

.

Oh cheiro puro e só da terra!

Não das mimosas,

que já tinham florido

no meio dos pinheiros;

não dos lilases,

pois era cedo ainda

para mostrarem

o coração às rosas;

mas das tímidas, dóceis flores

de cor difícil.

entre limão e vinho,

entre marfim e mel,

abertas no canteiro junto ao tanque.

.

Frésias,

ó pura memória

de ter cantado –

pálida, fragrantes,

entre chuva e sol

e chuva

– que mãos vos colhem,

agora que estão mortas

as mãos que foram minhas?

Eugénio de Andrade

Despojo
Novembro 20, 2010

E, agora, o que faremos?

A quem legar o que resta

Do simulacro de festa

Que tivemos?

 

Quem aproveita os detritos

De uma alegria forçada?

Quem confunde aflitos gritos

Com imposta gargalhada?

 

Iremos por onde alguém

Descubra os nossos farrapos.

Vês flores no jardim de além?

– Vejo sapos.

 

 António Manuel Couto Viana , Voo Doméstico