Vieste como um barco carregado de vento
Novembro 28, 2017

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

mar 4

Maria do Rosário Pedreira    em    ‘O Canto do Vento nos Ciprestes’

Sempre que te vais
Junho 11, 2015

Sempre que te vais,

fico sempre mais pobre,

quando ficas é sempre tão cedo.

Dos cigarros mal apagados que ficaram, do suor,

dos lençóis despenteados, das cruzes.

aflitos subimos o muro das ilusões.

Que cobardes que éramos não fosse o amor!

Damo-nos, despimos as máscaras, deixamo-nos à mercê dos deuses.

Brincamos, choramos e ainda temos tempo de ver nascer o dia.

Tu partes, levas-me e eu fico mudo por dentro.

É preciso muita coragem para amar, ver partir,

e voltar a vestir o fato já gasto da civilização!

solslslslsl

Daniel  Dias