Tu és a terra
Julho 20, 2017

 

Tu és a terra em que pouso.
macia, suave, terna, e dura o quanto baste
a que teus braços como tuas pernas
tenha de amor a força que me abraça.

És também pedra qual a terra às vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.

E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos ao meu gosto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.

És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre Terra ou raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.

lilás

Jorge de Sena

O silêncio
Maio 31, 2017

O silêncio dói como pedra na língua.

A vida por vezes não tem esperança nem sentido,

tudo parece em paz e no entanto o amor

tem sempre uma mais fria recompensa.

Desde a primeira flor, pouco ainda mudou

essa face da noite com a face do Homem.

O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta

e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.

O silêncio é de passos que atormentam a noite

e que ao fundo do fogo vão buscar a luz

para fazer arder as horas até ao orvalho

onde a manhã se ri com os dentes da água.

Às vezes vagueia pelo pomar da noite

uma égua perdida numa nesga de luz,

é a dor que pergunta e procura uma casa

junto à erva do peito, sob os olhos calados.

novembro2

Joaquim Pessoa

O resgate
Abril 25, 2017

Alegria por vezes dispersiva
quem a tem não a tinha tido antes,
quando os homens falavam, hesitantes,
da liberdade ausente e sempre esquiva.
.
Uma alegria cristalina e viva
com belos movimentos ondulantes
de rios bravios, de multidões vibrantes,
que levam as derrotas à deriva.
.
Derrocada dos donos e senhores,
na hora justa que explode em flores,
no resgate de tantos desenganos.
.
Alegria, alegria, tu nos levas
contigo, e atrás de ti ficam as trevas,
as trevas temerosas dos tiranos.

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Sidónio Muralha

Quando vier a Primavera
Março 5, 2017

quando a ternura for a única regra da manhã
Fevereiro 1, 2017

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços.
a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória,
quando o inverno for tão distante,
quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo
e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela.
sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha,
porque eu acordarei nos teus braços
e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra,
para não estragar
a perfeição da felicidade.

sorriso-cumplice

José Luís Peixoto    em     ‘A Criança em Ruínas’

O Amor, meu Amor
Novembro 21, 2016

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

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Mia Couto    em    “idades cidades divindades”

É preciso avisar toda a gente
Abril 26, 2016

É preciso avisar toda a gente,
dar notícia, informar, prevenir
que, por cada flor estrangulada,
há milhões de sementes a florir.
.
É preciso avisar toda a gente,
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada a detenha.
.
É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.
.
É preciso avisar toda a gente,
transmitindo esta morse de dores.
É preciso, imperioso e urgente
mais flores, mais flores, mais flores.

labaredas

João Apolinário

A companheira
Setembro 19, 2015

Não te busquei, não te pedi: vieste.
E desde que eu nasci houve mil coisas
a que os meus olhos se deram com igual
simplicidade : o Sol, a manhã de hoje,
essa flor que é tão grácil que a não quero,
o milagre das fontes pelo Estio…
Vieste ( o Sol veio também, a flor,
a manhã de hoje, as águas…). Alegria,
mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural
encontro, natural como a chegada
do Sol, da flor, das águas, da manhã,
de ti, que eu não buscara nem pedira.

E o Amor? E o Amor? E o Amor?
-: Vieste.
Wherever

Sebastião da Gama

A mulher mais bonita
Agosto 21, 2015

estás tão bonita hoje.
quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim,
quero dizer que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas, a minha voz nomeia-te para descrever a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, em “A Casa, a Escuridão”

Amo o teu túmido candor de astro
Agosto 13, 2015

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hábito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

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António Ramos Rosa