Escrevo-te
Agosto 16, 2018

 Escrevo-te com o fogo e a água.

 Escrevo-te no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.

 Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

 O que procuro é um coração pequeno, um animal perfeito e suave.

 Um fruto repousado, uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,

 uma pergunta que não ouvi no inanimado,

 um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?

 Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.

 As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.

 O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,

 o grande sopro imóvel da primavera efémera.

.

 António Ramos Rosa

(Volante Verde – 1986)

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O silêncio
Maio 31, 2017

O silêncio dói como pedra na língua.

A vida por vezes não tem esperança nem sentido,

tudo parece em paz e no entanto o amor

tem sempre uma mais fria recompensa.

Desde a primeira flor, pouco ainda mudou

essa face da noite com a face do Homem.

O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta

e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.

O silêncio é de passos que atormentam a noite

e que ao fundo do fogo vão buscar a luz

para fazer arder as horas até ao orvalho

onde a manhã se ri com os dentes da água.

Às vezes vagueia pelo pomar da noite

uma égua perdida numa nesga de luz,

é a dor que pergunta e procura uma casa

junto à erva do peito, sob os olhos calados.

novembro2

Joaquim Pessoa

Aquela triste e leda madrugada
Março 17, 2017

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
se acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.

Luiz de Camões

Forma
Agosto 9, 2016

Procurava um estilo – algo que se pusesse no

poema como um chapéu para a chuva ou para o

sol. Queria vestir a linguagem, a estrofe, o verso

com a insólita elegância do equilibrista. Lia

em voz alta os poemas dos outros como se fossem

seus; e, no entanto, não conseguia sair da

“aurea mediocritas”, do tom baixo que caracteriza

os simples imitadores, Uma noite, aproveitou

o isolamento da rua para se observar a si

próprio no reflexo de uma porta de vidro. “Quem

és?”, perguntou à sua imagem; e não se espantou

com o silêncio que lhe respondeu. Não era ele,

afinal, incapaz de explicar fosse o que fosse

da vida ? Construía ilusões e deixava que elas

se esfumassem sem se preocupar em fixar a

sua imagem – afinal, aquilo de que os poemas são

feitos. E o inverno passou, com o fogo das suas

águas; uma primavera trouxe-lhe o nome que há

muito se desabituara de chamar; julho e agosto

prostraram-no na hesitação das tardes. Para quê

escrever? Porém, as nuvens do outono desceram ao

nível dos telhados; os dias ficavam mais curtos;

o vento do norte chegava com uma dicção de

antigas folhas. Pensa que os mortos te visitam;

abre-lhes a página; e descobre que és um deles,

envolto num lençol de névoa e de retórica.

Moon and cloud.

Nuno Júdice

É preciso avisar toda a gente
Abril 26, 2016

É preciso avisar toda a gente,
dar notícia, informar, prevenir
que, por cada flor estrangulada,
há milhões de sementes a florir.
.
É preciso avisar toda a gente,
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada a detenha.
.
É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.
.
É preciso avisar toda a gente,
transmitindo esta morse de dores.
É preciso, imperioso e urgente
mais flores, mais flores, mais flores.

labaredas

João Apolinário

A noite na ilha
Maio 29, 2014

Dormi contigo toda a noite

junto ao mar, na ilha.

Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.

.

Os nossos sonos uniram-se

talvez muito tarde

no alto ou no fundo,

em cima como ramos que um mesmo vento agita,

em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

.

O teu sono separou-se

talvez do meu

e andava à minha procura

pelo mar escuro

como dantes,

quando ainda não existias,

quando sem te avistar

naveguei a teu lado

e os teus olhos buscavam

o que agora

– pão, vinho, amor e cólera –

te dou às mãos cheias,

porque tu és a taça

que esperava os dons da minha vida.

.

Dormi contigo

toda a noite enquanto

a terra escura gira

com os vivos e os mortos,

e ao acordar de repente

no meio da sombra

o meu braço cingia a tua cintura.

Nem a noite nem o sono

puderam separar-nos.

.

Dormi contigo

e, ao acordar, a tua boca,

saída do teu sono,

trouxe-me o sabor da terra,

da água do mar, das algas,

do âmago da tua vida,

e recebi teu beijo,

molhado pela aurora,

como se me viesse

do mar que nos cerca.

ilha

Pablo Neruda

Quando o amor morrer dentro de ti
Abril 18, 2014

Quando o amor morrer dentro de ti,
caminha para o alto onde haja espaço,
e com o silêncio outrora pressentido
molda em duas colunas os teus braços.

.
Relembra a confusão dos pensamentos,
e neles ateia o fogo adormecido
que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
espalhou generoso aos quatro ventos.

.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
e o nocturno calor que se debruça
sobre as faces brilhantes de soluços.

.
E se ninguém vier, ergue o sudário
que mil saudosas lágrimas velaram;
desfralda na tua alma o inventário
do templo onde a vida ora de bruços
a Deus e aos sonhos que gelaram.

só

Ruy Cinatti,   em  “Obra Poética”

escrevo-te a sentir tudo isto
Janeiro 21, 2014

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar.

let it go

AL BERTO, em O MEDO (1987)

Passagem
Julho 23, 2013

passage

 

Com que palavras ou que lábios

é possível estar assim tão perto do fogo,

e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,

tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,

e não só uma voz de ninguém.

Onde, porém? Em que lugares reais,

tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,

e estamos, se possível, ainda mais sós,

sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e como diremos rios?

À Inês

Manuel António Pina   em    Como se desenha uma casa (Assírio & Alvim)

A mulher feliz
Março 28, 2012

Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na
e os ventos empurraram-na, está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
Só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.

É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!

Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais intima distância.

ANTÓNIO RAMOS ROSA, em VOLANTE VERDE