Em ti
Setembro 2, 2012

Em ti o chão exausto de meu desejo. A flor aberta
dos sentidos. A calidez do lume. A água. O vinho.
O sangue a estuar em fúria. O grito do sol
que em transe de labareda fulge e irradia.
A extensão de tantos vales


e colinas. Fragrantes. Infinitas.
Os pomos saborosos, repartidos.
Os gomos. Os sumos ardorosos.
Os bosques impregnados de maresia.
A placidez molhada das ervas.
O luzir loiro das searas pelo vento devastadas.
O estio. O seu zénite. A sua vertigem.

Em ti a inclinação dos ramos. A translucidez do verde.
O derrame da seiva. O estremecer das raízes.
O musgo despontando. O aveludado dos troncos.
Os álamos. Os plátanos. E outras núbeis melodias.
O espreguiçar incandescente dos rios.
O êxtase das aves altas anunciando o fervor
de um beijo. De um afago. De uma carícia.
O hálito das corolas. As sépalas. Os estames.
O brilho e o odor silvestre da resina. A relva sedosa.
A primavera inebriada com sua própria brisa.

Em ti o menear da terra. As eiras. O feno flamante.
O irromper dos brotos. O despertar dos cálices.
A embriaguez do nardo. E da acácia, festiva.
O matiz das cores na várzea repercutido.
O som dos mananciais posto a descoberto.
O manar das fontes em euforia.
Os céus azuis a derramarem hinos.
O trinado agudo da andorinha.
O acenar obstinado dos choupos.
As centelhas rubras do crepúsculo.
O perfume juvenil das vinhas.

Em ti o delírio das ondas. Das espumas.
As fogueiras ateadas. Os aromas fulvos.
O sopro das chamas. O pão aceso. As espigas.
Os campos de lilases que se estendem
numa queimadura de aurora.
As pétalas humedecidas.
O incêndio azul do orvalho.
A alvura da açucena na manhã florida.

Em ti, amada, celebro a memória

de todas as coisas vivas.

Gonçalo Salvado

18
Novembro 16, 2011

Se hoje á noite chover

talvez me vá estender ao sol da tua face

como se acreditasse

que o outono voltou.

E no banco de ver

dourados e vermelhos

vou cruzar os joelhos

ao lado de quem sou.

   …

Vou à esquina de ti comprar castanhas

guardá-las nas entranhas

dos bolsos de inventar.

Vou ao sótão de nós buscar a lenha

de acender a fogueira de falar.

Cortarei o pão quente da conversa

perguntas e respostas e risadas

que são bolos de festa.

Falaremos do sol, das madrugadas,

do mar e da floresta.

E se ainda chover

quando a vitrola da alegria der

compassos soltos de uma moda antiga

(que ninguém canta mais)

trocaremos palavras rituais

que servem p’ra fazer uma cantiga

(trigo, linho, papoila, malmequer,

saudade, rapariga…)

Diremos orações no tom do vento

exconjurando fantasmas que há em nós.

Faremos o amor visto por dentro

junto à lareira de não estarmos sós.

Ouviremos na cama o som da chuva

(sempre chove na sede de quem quer).

De folha em folha seca

de uva em uva

juntaremos os corpos à saúde

desse outono dourado que vier.

Porém se tudo não surtir efeito

e disseres que novembro não voltou,

vou pousar a cabeça no teu peito.

Saberás que o outono já chegou.

Rosa Lobato de Faria

 

À tua espera
Agosto 10, 2010

O meu mundo tem estado à tua espera ; mas

não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,

nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei

 

que um poema se escreveria entre nós dois ; mas

não comprei o vinho, não mudei os lençóis,

não perfumei o decote do vestido.

 

Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome

(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido)

se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –

 

estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro

com a violência de um incêndio ; mas parto

antes de saber como seria. Não me perguntes

porque se mata o sol na lâmina dos dias

e o meu mundo continua à tua espera :

houve sempre coisas de esguelha nas paisagens

e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes.

 

Maria do Rosário Pedreira