Reza da manhã de Maio
Maio 19, 2017

 

Senhor, dai-me a inocência dos animais
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade,
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.

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Sophia de Mello Breyner Andresen.

É preciso avisar toda a gente
Abril 26, 2016

É preciso avisar toda a gente,
dar notícia, informar, prevenir
que, por cada flor estrangulada,
há milhões de sementes a florir.
.
É preciso avisar toda a gente,
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada a detenha.
.
É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.
.
É preciso avisar toda a gente,
transmitindo esta morse de dores.
É preciso, imperioso e urgente
mais flores, mais flores, mais flores.

labaredas

João Apolinário

Se a desgraça chegar
Janeiro 20, 2016

Um homem só é homem se persiste,
se luta, se contesta, se ultrapassa
a angústia agreste do minuto triste
que traz a solidão e a desgraça.
.
Eu que conheço tudo quanto existe
e por tudo passei (e a gente passa),
acredito naquele que conquiste
no sofrimento a força de uma raça.
.
A minha raça. Raça destroçada
mas corajosa, que tem tudo e nada,
o mar e a areia dos desertos.
.
Homem, aconteça o que aconteça,
se a desgraça chegar, ergue a cabeça
e vai em frente, de olhos bem abertos.

homem-tristeza

Sidónio Muralha

Arte poética
Dezembro 20, 2015

Faço um poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes com o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
na água, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
regista, como o dedo segue
a linha da leitura,
como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas ás vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim.
Faço poema às vezes.
.
Faço poema sempre como vivo.

regato 2

Walmir Ayala

Recuso-me
Outubro 27, 2015

Recuso-me a ficar amolecido,
tragicamente cilindrado,
e, muito antes de lutar – vencido,
e, muito antes de morrer – violado.
.
Recuso-me ao silêncio e à mordaça.
Serei independente, livre e exacto.
A verdade é uma força que ultrapassa
a própria dimensão em que combato.
.
Recuso-me a servir a violência,
embora a minha voz de nada valha,
mas que me fique ao menos a consciência
de que tentei romper esta muralha.
.
Recuso-me a ter medo e a estiolar
na concha dos poetas sem mensagem.
Que me levem o corpo e a coragem
mas que me fique esta voz para cantar.

homem-tristeza

João Apolinário

Discurso de Péricles aos Atenienses
Junho 29, 2015

 

Deixai-os em treino permanente
como se a vida fosse apenas exercício
Atenas ama o vinho e a poesia
e Esparta o sacrifício

Que nos acusem de vida fácil e leviandade
Que digam que não sabemos guardar segredo
nem combater
Em Atenas reina a liberdade
e em Esparta o medo

A nossa força é a diferença

Não são precisas provações nem disciplina
Atenas vive como quer e como gosta
porque a nossa coragem não se aprende não se ensina
A nossa é de nascença
e não imposta

Deixai-os pois dizer que vão vencer
Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
nós iremos lutar com alegria

Por isso Atenas não será vencida

tempestade

Manuel Alegre

Fronteira
Agosto 13, 2013

De um lado terra, doutro lado terra;

de um lado gente, doutro lado gente;

lados e filhos desta mesma serra,

o mesmo céu os olha e os consente.

.

O mesmo beijo aqui, o mesmo beijo além;

uivos iguais de cão ou de alcateia.

E a mesma lua lírica que vem

corar meadas de uma velha teia.

.

Mas uma força que não tem razão,

que não tem olhos, que não tem sentido,

passa e reparte o coração

do mais pequeno tojo adormecido.

paisagem

Miguel  Torga

Sonhos
Março 7, 2013

Apesar das ruínas e da morte,
onde sempre acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo renasce a exaltação
e nunca as minhas mãos ficam vazias.

noite-de-luar
.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in POESIA (Ed. de autora, 1944), in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010)

O amor é uma companhia
Junho 10, 2012

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
e ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

A vida e a bola
Abril 12, 2011

A vida é como atirar uma bola à parede.

Se for atirada uma bola verde, ela voltará verde ;

se for atirada uma bola azul, ela voltará azul ;

se a bola for atirada fraca, ela voltará fraca ;

se a bola for atirada com força ,

ela voltará com força.

Por isso, nunca “atire uma bola na vida”,

de forma a que não esteja pronto para recebê-la.

A vida não dá nem empresta ;

não se comove nem se apieda.

Tudo o que ela faz é retribuir e transferir

aquilo que nós lhe oferecemos.

Albert  Einstein