Nunca serei vencida
Março 23, 2017

Nunca serei vencida.
Não o serei
senão à força de vencer.

Cada armadilha estendida
fechando-me cada vez mais
no amor
que acabará por ser o meu
túmulo,
acabarei a minha vida numa cela
de vitórias.

Sozinha,
a derrota encontra chaves,
abre portas.

A morte,
para atingir o fugitivo,
tem de se pôr em movimento,
perder essa fixidez
que nos faz reconhecer
que ela é o duro contrário
da vida.

Ela dá-nos o fim do cisne
atingido em pleno voo,
de Aquiles agarrado pelos cabelos
por não sabermos que sombria Razão.

Como a mulher asfixiada no vestíbulo
da sua casa de Pompeia,
a morte não faz mais do que prolongar
no outro mundo os corredores
da fuga.

A minha morte será
de pedra.

Conheço as passagens,
as curvas,
as armadilhas,
todas as minas da Fatalidade.

Não posso perder-me.

A morte,
para me matar,
terá necessidade da minha
cumplicidade.

Foto de Livraria Poetria.
Marguerite Yourcenar

Espionagens verbais
Março 7, 2012

Anda desde a manhã uma palavra
… a perseguir-me, a espreitar-me de longe
em atitude nítida de pose,
em clara posição de desafio.

Sugere-se ligeira e disfarçada,
depois foge como uma Mata-Hari
lexical. Não sei o que em mim vê:
não tenho alta patente nem estatuto.

E contudo ela anda por aí.
Sonora e inaudível, surge-me
do silêncio e dos ruídos longos,
brevíssima nos cantos ? e perigosa.

Lá passou outra vez. E anda nisto
desde que me vesti e vi o sol.
Nada a faz desistir: nem a tarde
a cair, nem a minha ameaça de fuzis.

Ana Luísa Amaral

23
Outubro 15, 2011

Busquei na saudade funda

que os seus olhos me deixaram

a coragem –

e a firmeza resistente

p’ra fugir da sua vida.

   …

Agora, já sou aquele

que os outros querem que eu seja :

normal, um pobre-diabo

que obedece ao preconceito

moralíssimo, profundo,

de beijar a eterna esfinge…

   …

Já deixei o meu amor,

já fiz a vontade ao mundo.

António  Botto

Os silêncios
Maio 12, 2009

Não entendo os silêncios

que tu fazes

nem aquilo que espreitas

só comigo.

Se escondes a imagem

e a palavra

e  adivinhas aquilo

que não digo.

casa

Se te calas

eu oiço e eu invento.

Se tu foges

eu sei não te persigo.

Estendo-te as mãos,

dou-te a minha alma

e  continuo a querer

ficar contigo.

 

Maria Teresa Horta

Névoa
Outubro 29, 2008

Procurei-te e não te encontrei,

embora tu soubesses que eu ia.

Foi fuga, imprevisto, adeus? Não sei.

Foi névoa baça sobre o meu dia…

.

Não conheço o correr da tua lei,

nem a luz invisível que te guia.

Pergunto a mim própria se estarei

uma vez mais seguindo a fantasia…

Algo me diz que eu sou importante

para ti, que agora, neste instante,

pensas em nós e sonhas com a hora

.

de acabar com os mal-entendidos.

Mas como acreditar? Os meus sentidos

buscam-te, tensos, e tu vais embora.

.

 Diana Sá

Dez minutos
Setembro 2, 2008

Tenho dez minutos

para dizer que te amo

o tempo de ainda ouvir um piano de antigamente

será minha fuga antes das dez

embalado por um som que só a ti me leva

quero que cada momento seja especial

sei que mais tarde quando me leres

vais saber que esta contagem decrescente te pertence

terás dez razões para te interrogares

porque escrevo em carta aberta

mas terás outras tantas

para te convenceres que

por estares longe mais te amo

quando tu estás por perto

não me concentro em ti

sou desviado pelo teu olhar único

tua anca teus cabelos

tuas dores e sorrisos

tuas rugas teus vestidos

tua tristeza

já não tenho dez minutos

mas dez anos para te amar

dizem as finas estatísticas

 Carlos Peres Feio

Amor
Junho 25, 2008

Aqueles olhos aproximam-se e passam.

Perplexos, cheios de funda luz,

doces e acerados, dominam-me.

Quem os diria tão ousados ?

Tão humildes e tão imperiosos,

tão obstinados !

Como estão próximos os nossos ombros !

Defrontam-se e furtam-se,

negam toda a sua coragem.

De vez em quando,

esta minha mão,

que é uma espada e não defende nada,

move-se na órbita daqueles olhos,

fere-lhes a rota curta,

poderosa e plácida.

Amor, tão chão de amor,

que sensível és …

Sensível e violento, apaixonado.

Tão carregado de desejos !

Acalmas e redobras

e de ti renasces a toda a hora,

cordeiro que se encabrita e enfurece

e logo recai na branda impotência.

Canseira eterna !

Ou desespero, ou medo.

Fuga doida à posse, à dádiva.

Tanto bater de asas frementes,

tanto grito e pena perdida …

E as tréguas, amor cobarde ?

Cada vez mais longe,

mais longe e apetecidas.

Ó amor, amor,

que faremos nós de ti,

e tu de nós ?

y_love1

 Irene Lisboa

À espera
Abril 25, 2008

Não sei o que tu pensas.

Não sei se me entendeste hoje.

Afinal não sei quase nada de ti.

Só que algo existe entre nós.

O que é não sei,

porque te recusas a falar,

porque foges de mim,

apesar de me procurares.

É difícil viver assim,

suspensa no imprevisível,

à espera

de dias mais claros…

tempo 3

Diana  Sá