Caderno 1
Março 31, 2019

Quando me perco de novo neste antigo

caderno de capa preta de oleado –

que um dia rasguei com fúria e que um amigo

folha a folha recolou com vagar e paciência –

.

tudo me dói ainda como faca e me corta

pois diante de mim estão como sussurro e floresta

as longas tardes as misturadas noites

onde divago e divagam incessantemente

os venenosos perfumes mortais da juventude

.

E dói-me a luz como um jardim perdido

neve

Sophia de Mello Breyner Andresen

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Canção tão simples
Março 27, 2018

Quem poderá domar os cavalos do vento

quem poderá domar este tropel

do pensamento

à flor da pele?

.

Quem poderá calar a voz do sino triste

que diz por dentro do que se não diz

a fúria em riste

do meu país?

.

Quem poderá proibir estas letras de chuva

que gota a gota escorrem nas vidraças

pátria viúva

a dor que passa?

.

Quem poderá prender os dedos farpas

que dentro da canção fazem das brisas

as armas harpas

que são precisas?

chuva4

Manuel  Alegre

Com fúria e raiva
Outubro 20, 2017

Com fúria e raiva acuso o demagogo
e o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
que de longe muito longe um povo a trouxe
e nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
o homem soube de si pela palavra
e nomeou a pedra a flor a água
e tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
que se promove à sombra da palavra
e da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
como se fez com o trigo e com a terra

ruínas

   Sophia de Mello Breyner Andresen    em   “O Nome das Coisas

Vasco da Gama
Maio 3, 2016

Somos nós que fazemos o destino.
Chegar à Índia ou não
é um último desígnio da vontade.
Os fados a favor
e a desfavor
são argumentos da posteridade.
.
O próprio génio pode estar ausente
da façanha.
Basta que nos momentos de terror,
persistente,
o ânimo enfrente
a fúria de qualquer Adamastor.
.
O renome é o salário do triunfo.
O que é preciso, pois, é triunfar.
Nunca meia viagem consentida!
Nunca meia medida
do vinho que nos há-de embriagar!

tempestade

Manuel Alegre

O Viandante
Abril 16, 2013

Trago notícias da fome

que corre nos campos tristes:

soltou-se a fúria do vento

e tu, miséria, persistes.

Tristes notícias vos dou:

caíram espigas da haste,

foi-se o galope do vento

e tu, miséria, ficaste.

Foi-se a noite, foi-se o dia,

fugiu a cor às estrelas:

e, estrela nos campos tristes,

só tu , miséria, nos velas.

chuva4

Carlos de Oliveira

Astros
Janeiro 27, 2012

Aprendiz de avessos,

colhi lição de quem nada ensina

senão o talento de ser sem querer.

.

A chuva me ensinou telhados

e anoiteci nas letras de um livro.

.

A pedra me explicou a morte

no passo antecipado sobre a lápide.

.

Num mundo em que amar

se faz de fúrias pequenas e ódios perenes

em ti derramei meu corpo

para habitar a sombra da água.

.

Não importa quem dentro de mim  respira :

o amor é a noite

iluminando o relâmpago.

E eu não saberei nunca viver

de tanto te sonhar.

.

Como um Sol

que apenas existe

na sua própria ardência,

eu sou só amando.

.

A minha luz é um luar

à procura de uma outra Lua.

Mia Couto

 

Pergunta-me
Abril 5, 2010

Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinza

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue

Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me

se te voltei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas

e se eras tu

quem eu via

na infinita dispersão do meu ser

se eras tu que reunias pedaços do meu poema

reconstruindo

a folha rasgada

na minha mão descrente

Qualquer coisa

pergunta-me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

saibas o que te quero dizer

                                                                    Mia Couto