Colhe o dia porque és ele
Maio 22, 2016

Uns, com os olhos postos no passado,
veem o que não veem: outros, fitos
os mesmos olhos no futuro, veem
o que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto
a segurança nossa? Este é o dia,
esta é a hora, este o momento, isto
é quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
que nos confessa nulos. No mesmo hausto
em que vivemos, morreremos.
Colhe o dia, porque és ele.

natureza_rio

Ricardo Reis  (heterónimo de Fernando Pessoa)

Conformismo
Fevereiro 1, 2016

Pendurado do resto de um cigarro,
– meio aceso, meio ardido –
desfaço-me na cinza dos dias que passam,
sem que eu passe além de mim,
desenhando saudades na penumbra da memória.
.
Saudades de um futuro que o fumo leva
e que dissolvo neste whisky,
velho de mágoas destiladas
nas altas terras das dores silenciadas.
.
Sentado no silêncio frio da pedra solitária,
rumino o lume brando que me cerca,
enquanto olho o mundo
pelas vidraças da alma embaciada,
e, acomodado, reflicto:
– “as coisas são o que são!”.

© Matt Wisniewski

Vítor Bento

Aos meus companheiros de Angola
Dezembro 14, 2015

Éramos jovens.
Sonhámos um futuro novo.
Estávamos longe de pensar
que o futuro é velho.
Às vezes está em crise
como um bêbado
à procura do seu centro de gravidade.
.
Éramos jovens.
Tínhamos a vida inteira à nossa frente.
Namorámos a manhã
com a alma virada para o mar.
Cultivámos a paixão, o amor,
os beijos, a viagem.
Lutámos contra a opressão,
contra toda e qualquer opressão.
Éramos jovens.
Tínhamos sede de justiça e de luz.
Sonhámos um país diferente,
como um poema cintilante.
Descobrimos que os países ignoram
a gramática da poesia.
Os países são coisas banais, primitivas,
habitadas pelo mal
e o mal mistura-se com o bem.
Líquidos miscíveis,
tudo é mais turvo e mais difícil.
.
Hoje alguns de nós querem reviver tudo,
refundar o passado,
investigar porque falhámos.
Ainda bem que falhámos.
Dormimos tranquilos e sãos.
A nossa alma está limpa e sábia.
.
Éramos jovens
e sonhámos um futuro novo.
Estávamos longe de pensar
que o futuro é velho
e recebe visitas ao fim da tarde.
alegria

António Costa Silva

O Portugal futuro
Novembro 20, 2015

O portugal futuro é um país

aonde o puro pássaro é possível

e sobre o leito negro do asfalto da estrada

as profundas crianças desenharão a giz

esse peixe da infância que vem na enxurrada

e me parece que se chama sável

Mas desenhem elas o que desenharem

é essa a forma do meu país

e chamem elas o que lhe chamarem

portugal será e lá serei feliz

Poderá ser pequeno como este

ter a oeste o mar e a espanha a leste

tudo nele será novo desde os ramos à raiz

À sombra dos plátanos as crianças dançarão

e na avenida que houver à beira-mar

pode o tempo mudar será verão

Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz

mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o portugal futuro

portugal

Ruy Belo

No princípio
Novembro 14, 2015

No princípio, só a vida existia;
o mundo era o que havia
ao alcance da vida…
E mais nada.
.
Tudo era certo, simples, claro.
.
Quando o passado passar
(e passará, porque o passado é hoje),
e o futuro vier
(e há-de vir, porque o futuro é hoje),
então, sim; há-de saber-se tudo.
E tudo será certo, simples, claro.
.
Eu, porém, não sei nada.

estrelas

Reinaldo Ferreira

Dies Irae
Novembro 2, 2015

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
a mão do dedo sobre a nossa hora.
.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
todo o futuro a este dia de hoje.
.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
os motivos onde a alma se arrebata.
.
Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades cinzeladas
que deixam ver a vida que não temos
e as angústias paradas.

.
soledad_y_tristeza_by_magdalena220

Miguel Torga

A Europa
Fevereiro 9, 2015

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno

e disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?

É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.

Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.

Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,

nem sequer contra o insólito, contra o desespero.

Tu disparas contra a luz.

Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.

Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.

Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.

Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.

Há tantos meses que não chove – reparaste?

A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.

Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.

Quem deve. Quem empresta. Quem paga.

Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.

Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.

Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.

Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,

nós não queremos disparar.

europa

Filipa Leal

(“A Europa” é um poema integrado no poema em cadeia “Renshi.eu – um diálogo europeu em versos” do Festival de Poesia de Berlim. É um poema em cadeia escrito por 28 poetas de 28 países europeus, que abordam de forma literária as questões do presente e futuro da Europa. Cada poeta começa a escrever a partir do último verso do poema anterior, dando origem a uma obra gigantesca que espelha uma miríade de olhares e referências culturais. Este poema foi lido pela autora em português, na sessão de apresentação da obra conjunta, na Akademie der Kuenste de Berlim.)

Na sombra
Setembro 19, 2014

No final das tardes de Setembro,

procurámos o horizonte.

O futuro era um mar

de onde nada sobressaía.

.

Campos de searas quase impossíveis

esperavam a noite,

os rios desconheciam a sua origem,

perdidos na vastidão.

.

Ainda aguardámos outro Inverno

com expectativa e receio,

mas existe um azul

que permanece e se renova.

.

Adormecemos tranquilos,

não mais precisámos de sombra.

trovoada

Joel  Henriques

Três palavras
Fevereiro 26, 2014

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já está no passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
logo o destruo.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não se encaixa em coisa nenhuma.
 .
velocidade_do_automovel_1910_giacomo-balla

 

Wislawa   Szymborska

Novo Ano
Dezembro 31, 2013

Malta!

Ouçam a terra a girar!

Estremeçam, sente-se o ano a chegar!

Olhem, o nevoeiro denso

ávido e intenso, a vir do mar.

Preparem-se que a guerra é hoje.

Chegou ontem pela calada,

os castelos estão tomados,

os jardins amordaçados.

Acordem todos, alerta e bem

que o amanhã é uma traça

tão negra no futuro que nos colhe

que entre os dedos da desgraça

sem chegar nos ultrapassa.

Malta, todos na mesma? Arre!

Às armas, em pé, peito ao vento

que eu nem sei como aguento.

Mas nada foi diferente!

Povo dolente e tudo dormente!

Há tanto que começou

o tempo da incoerência

que eu ardo de impaciência.

Malta! Olhem o louco horizonte!

Pum! Ano Novo e agora?

Bom Ano? Há quem mereça?

Pum! Nevoeiro! Caiu a ponte!

De quem é esta cabeça?

Conceição Roque da Silveira