Um não acabar mais
Julho 1, 2020

Sou quem sou.
Um acaso inconcebível
como todos os acasos.
.
Outros antepassados
poderiam, afinal, ser os meus,
e então de outro ninho
sairia voando,
de debaixo de outro tronco
rastejaria, coberta de escamas.
.
No guarda-roupa da Natureza
há trajes de sobra:
o traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um assenta de imediato que nem uma luva
e usa-se obedientemente
até se gastar por completo.
.
Eu tampouco tive alternativa,
mas não me queixo.
Poderia ser alguém
muito menos individual.
Alguém do cardume, do formigueiro, do enxame zuninte,
uma partícula de paisagem agitada pelo vento.
.
Alguém muito menos feliz,
criado para dar a pele,
para a mesa festiva,
ou algo que nadasse sob a lente.
.
Uma árvore presa à terra,
pela marcha dos acontecimentos inconcebíveis.
.
Um indivíduo nascido sob a estrela ruim
que para outros seria boa.
.
E que seria se despertasse nas pessoas medo?
Ou só aversão?
Ou só piedade?
.
Se não tivesse nascido
na tribo certa
e todos os caminhos se me fechassem?
.
Até agora, a sorte
mostrou-se-me favorável.
.
Poderia não ter-me sido dada
a recordação dos bons instantes.
.
Poderia ter-me sido negada
a tendência para comparar.
.
Poderia até ser eu própria
mas sem o dom da admiração,
quer dizer – alguém completamente diferente.

Wislawa Szymborska

Lisboa ainda
Março 29, 2020

Lisboa não tem beijos nem abraços

não tem risos nem esplanadas

não tem passos

nem raparigas e rapazes de mão dadas

tem praças cheias de ninguém

ainda tem sol mas não tem

nem gaivota de Amália nem canoa

sem restaurantes sem bares nem cinemas

ainda é fado ainda é poemas

fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa

cidade aberta

ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste

e em cada rua deserta

ainda resiste.

Lisboa

Manuel Alegre ( 20/3/20 )

Se uma gaivota viesse
Setembro 16, 2018

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai ao mar…
.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
.
Se ao dizer adeus à vida,
as aves todas do céu
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu…
.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
.
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Alexandre O’Neill

A um ti que eu inventei
Fevereiro 22, 2018

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-la em finíssima aguada

com um pincel de marta.

.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger da chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

.

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba ou oiça,

Um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

.

Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.

sem-titulo3

António Gedeão

Porque a recusas.
Janeiro 8, 2018

Porque a recusas, esta cidade despovoa-se, o granito
torna-se subitamente uma resina pegajosa e hostil.

As gaivotas fogem para o mar com gritos roucos, um
arrepio atravessa as ruas como sinal de inverno.

Encontro as portas fechadas ao longo das paredes; um
curto circuito acaba de apagar o sol, a lua vazia ergue
uma maré que escava furiosamente as praias.

O espaço minga, as folhas secas tombam com um riso
grato: sabem que foram nas árvores a última primavera.

Um coração está pousado no solo e eu tropeço na sua
derradeira pulsação. Já o vi algures, creio, antes do medo.

Foz

Egito Gonçalves    em    Luz Vegetal

Os meus passos
Novembro 15, 2017

Os meus passos de criança não deixavam pegadas,

a tua mão de areia e de espuma

atraía-me para o teu seio

e eu partia, numa braçada confiante

em direcção ao azul dos gritos das gaivotas,

esse azul reluzente ao nível dos olhos

que me chamam sempre mais longe

em busca da vaga que seria enfim minha.

Hoje olho-te, mar,

e lembro-me das lágrimas vertidas,

do sal amargo do regresso,

da tua cor cambiante

que me traz o esquecimento

e eu permaneço lá, apaziguada e feliz,

a olhar a maré do presente

que já não é para mim o chamamento

da tua mortal imensidão.

mar bravo

Isabel  Meyrelles

momentos de mar
Agosto 15, 2016

 

a espuma adormece na areia
o cansaço de tanto andado

uma gaivota deixa o bando
primeiro passo para a liberdade

ao longe um barco acena
promessas de viagens a fazer

no céu uma nuvem brinca com o sol
e eu perco-me de tanto infinito

A.H. Cravo

gaivotas 3

Que culpa terão as ondas?
Janeiro 6, 2016

… Que culpa terão as ondas
dos movimentos que façam?
– São os ventos que as impelem
e sulcos profundos traçam.
… Aos ventos quem lhes ordena
que rasguem rugas no mar?
– São as nuvens inquietas
que os não deixam sossegar.
… E as nuvens, almas de névoa,
porque não param, coitadas?
– É que as asas das gaivotas
as trazem desafiadas.
… Mas as asas das gaivotas,
o cansaço há-de detê-las!
– Juraram buscar descanso
nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
e não tombam nem se alcançam,
as asas das pobrezinhas
baldamente se cansam…
baldamente se cansam,
baldamente palpitam!…
As nuvens, por fatalismo,
logo com elas se agitam;
os impulsos que elas dão
arrastam as ventanias;
as vagas arfam nos mares
em macabras fantasias…
.
… Assim as almas inquietas…
Prisioneiras de ansiedades,
mal que se erguem da terra,
naufragam nas tempestades.

espuma

Reinaldo Ferreira

As Gaivotas
Junho 24, 2013

As gaivotas. Vão e vêm. Entram

pela pupila.

Devagar, também os barcos entram.

Por fim o mar.

Não tardará a fadiga da alma.

De tanto olhar, tanto

olhar.

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Eugénio de Andrade