On ne peut me connaître
Maio 13, 2017

On ne peut me connaître
mieux que tu me connais.
.
Tes yeux dans lesquels nous dormons
tous les deux
ont fait à mes lumières d’homme
un sort meilleur qu’aux nuits du monde.
.
Tes yeux dans lesquels je voyage
ont donné aux gestes des routes
un sens détaché de la terre.
.
Dans tes yeux ceux qui nous révèlent
notre solitude infinie
ne sont plus ce qu’ils croyaient être.
.
On ne peut te connaître
mieux que je te connais.

neve

Paul Éluard

Soneto de Inês
Março 11, 2017

Dos olhos corre a água do Mondego,

os teus cabelos parecem choupais.

Inês! Inês! Rainha sem sossego

dum rei que por amor não pode mais.

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Amor imenso que também é cego,

amor que torna os homens imortais.

Inês! Inês! Distância a que não chego,

morta tão cedo por viver demais.

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Os teus gestos são verdes, os teus braços

são gaivotas pousadas no regaço

dum mar azul turquesa intemporal.

.

As andorinhas seguem os teus passos

e tu morrendo com os olhos baços.

Inês! Inês! Inês de Portugal.

ines-de-castro

Ary dos Santos

.

Arte poética
Dezembro 20, 2015

Faço um poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes com o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
na água, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
regista, como o dedo segue
a linha da leitura,
como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas ás vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim.
Faço poema às vezes.
.
Faço poema sempre como vivo.

regato 2

Walmir Ayala

Passagem do outro lado
Outubro 1, 2015

Somos confusos como as florestas.
.
Tu, e eu (e todos nós),
temos enredos na voz,
armaduras e espessuras
que nos encobrem de nós.
.
Anda.
Percorre-me sem desvios,
inteira, plena, despida,
infância desprevenida
sem roupas e sem atavios.
.
Anda.
Rasga esta verde espessura
com os teus gestos afiados.
Insinua-te, procura,
derrama a tua brancura
nos trilhos enviesados.
Progride e canta. Penetra
neste matagal bravio,
desembrulhada e erecta
como a vela dum navio.
Singra, desliza suave
como gota que escorresses,
como luar que batesses,
penugem que esvoaçasses.
.
Entra e serve-te. Verás,
ou caídos ou suspensos,
frutos de aromas intensos

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que em silêncio morderás.
Teus dentes lhe darão sumo,
teus lábios lhe darão gosto
e o veludo que presumo
macio como o teu rosto.
.
Tuas mãos os farão belos
e alegres como facetas,
verdes, azuis, amarelos,
vermelhos e violetas.
.
De um arrepio, na espessura,
toda a floresta estremece.
Eu dou-te a minha loucura.
Dá-me o canto que a adormece.

António Gedeão

Gestos
Junho 25, 2014

Gestos,

apenas gestos. A minuciosa ternura

posta nas coisas imediatas,

nas que duram contra a noite,

nas que acendem lâmpadas precárias

e contêm o silêncio,

como se música fossem

e nela nos viéssemos

perder.

.

Gestos,

tu ouves?

Nem o teu coração pode dar guarida

a tanto silêncio da terra.

.

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse

e se, mergulhados numa aguda nostalgia

ou na recordação de um rosto,

nos desencontrássemos do mundo,

só esse gesto viria resgatar-nos,

a nós, feridos de amor e de sentido.

.

Por isso, hoje só posso dizer

o que o teu coração abandonou.

mao1

Luís Filipe Castro Mendes

Sacode as nuvens
Julho 30, 2013

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
mesmo que os meus gestos te trespassem
de solidão e tu caias em poeira,
mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
e os teus olhos nunca mais possam olhar.

rosado

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN,  em  CORAL

De novo
Março 28, 2013

De novo os passos, mansos, nas escadas.

De novo as chaves a cantar na porta.

Tulipas de silêncio amedrontadas

aguardam o sorriso que conforta.

.

De novo as mãos onde despontam rios.

De novo os olhos onde oscila a lua.

E desato as amarras dos navios

e das palavras que me fazem tua.

.

Chegar é confessar que me desejas.

Calar é confirmar que não dispenso

o gesto em que, gaivota, me insinuo…

.

Se de leve no ombro tu me beijas,

pela seda da roupa te pertenço

pela sede da boca te possuo.

olhosnosolhos

Rosa Lobato de Faria

Confidência
Outubro 21, 2012

observado

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto

Palavras 3
Setembro 18, 2011

É costume atirá-las sobre o medo.

Dizê-las sem pudor sobre o palco da noite

com grandes gestos gritos lágrimas.

Com elas percorremos

os oblíquos caminhos

que a solidão conhece.

Com elas ardilosos

enganamos a alma.

Mas são as outras

as claras as fugazes

as tímidas as doces

as pequenas palavras

que salvam os amantes.

Rosa  Lobato de Faria

Difícil é …
Março 30, 2011

É fácil trocar as palavras,

difícil é interpretar os silêncios !

É fácil caminhar lado a lado,

difícil é saber como se encontrar !

É fácil beijar o rosto,

difícil é chegar ao coração !

É fácil apertar as mãos,

difícil é reter o calor !

É fácil sentir o amor,

difícil é conter sua corrente !

 

Como é por dentro de outra pessoa ?

Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrém é outro universo

com que não há comunicação possível,

com que não há verdadeiro entendimento.

 

Nada sabemos da alma

senão da nossa ;

a dos outros são olhares,

são gestos, são palavras,

com a suposição

de qualquer semelhança no fundo.

Fernando  Pessoa