A verdadeira mão
Julho 18, 2019

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

ANA HATHERLY | O Pavão Negro (2003)

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A um carvalho
Junho 26, 2019

Forte como um destino,

calmo como um pastor,

a sarça ardente é quando o sol a pino

o inunda de seiva e de calor.

Barbas, rugas e veias de gigante,

mas, sobretudo, braços!

Largos e negros, de desmedidos traços,

gestos solenes de uma fé constante.

Árvore e banco

Miguel Torga

O Amor
Julho 14, 2017

 

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante e os olhos encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente divino: o amor.

Se um dia tiver que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras,entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir em pensamento sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado… se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados..

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite… se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado…

 Se você tiver a certeza que vai ver a pessoa envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela…

Se você preferir morrer antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. É uma dádiva.

 Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram e por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio.

Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.

Amar é...

Vinicius  de  Moraes

On ne peut me connaître
Maio 13, 2017

On ne peut me connaître
mieux que tu me connais.
.
Tes yeux dans lesquels nous dormons
tous les deux
ont fait à mes lumières d’homme
un sort meilleur qu’aux nuits du monde.
.
Tes yeux dans lesquels je voyage
ont donné aux gestes des routes
un sens détaché de la terre.
.
Dans tes yeux ceux qui nous révèlent
notre solitude infinie
ne sont plus ce qu’ils croyaient être.
.
On ne peut te connaître
mieux que je te connais.

neve

Paul Éluard

Soneto de Inês
Março 11, 2017

Dos olhos corre a água do Mondego,

os teus cabelos parecem choupais.

Inês! Inês! Rainha sem sossego

dum rei que por amor não pode mais.

.

Amor imenso que também é cego,

amor que torna os homens imortais.

Inês! Inês! Distância a que não chego,

morta tão cedo por viver demais.

.

Os teus gestos são verdes, os teus braços

são gaivotas pousadas no regaço

dum mar azul turquesa intemporal.

.

As andorinhas seguem os teus passos

e tu morrendo com os olhos baços.

Inês! Inês! Inês de Portugal.

ines-de-castro

Ary dos Santos

.

Arte poética
Dezembro 20, 2015

Faço um poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes com o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
na água, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
regista, como o dedo segue
a linha da leitura,
como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas ás vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim.
Faço poema às vezes.
.
Faço poema sempre como vivo.

regato 2

Walmir Ayala

Passagem do outro lado
Outubro 1, 2015

Somos confusos como as florestas.
.
Tu, e eu (e todos nós),
temos enredos na voz,
armaduras e espessuras
que nos encobrem de nós.
.
Anda.
Percorre-me sem desvios,
inteira, plena, despida,
infância desprevenida
sem roupas e sem atavios.
.
Anda.
Rasga esta verde espessura
com os teus gestos afiados.
Insinua-te, procura,
derrama a tua brancura
nos trilhos enviesados.
Progride e canta. Penetra
neste matagal bravio,
desembrulhada e erecta
como a vela dum navio.
Singra, desliza suave
como gota que escorresses,
como luar que batesses,
penugem que esvoaçasses.
.
Entra e serve-te. Verás,
ou caídos ou suspensos,
frutos de aromas intensos

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que em silêncio morderás.
Teus dentes lhe darão sumo,
teus lábios lhe darão gosto
e o veludo que presumo
macio como o teu rosto.
.
Tuas mãos os farão belos
e alegres como facetas,
verdes, azuis, amarelos,
vermelhos e violetas.
.
De um arrepio, na espessura,
toda a floresta estremece.
Eu dou-te a minha loucura.
Dá-me o canto que a adormece.

António Gedeão

Gestos
Junho 25, 2014

Gestos,

apenas gestos. A minuciosa ternura

posta nas coisas imediatas,

nas que duram contra a noite,

nas que acendem lâmpadas precárias

e contêm o silêncio,

como se música fossem

e nela nos viéssemos

perder.

.

Gestos,

tu ouves?

Nem o teu coração pode dar guarida

a tanto silêncio da terra.

.

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse

e se, mergulhados numa aguda nostalgia

ou na recordação de um rosto,

nos desencontrássemos do mundo,

só esse gesto viria resgatar-nos,

a nós, feridos de amor e de sentido.

.

Por isso, hoje só posso dizer

o que o teu coração abandonou.

mao1

Luís Filipe Castro Mendes

Sacode as nuvens
Julho 30, 2013

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
mesmo que os meus gestos te trespassem
de solidão e tu caias em poeira,
mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
e os teus olhos nunca mais possam olhar.

rosado

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN,  em  CORAL

De novo
Março 28, 2013

De novo os passos, mansos, nas escadas.

De novo as chaves a cantar na porta.

Tulipas de silêncio amedrontadas

aguardam o sorriso que conforta.

.

De novo as mãos onde despontam rios.

De novo os olhos onde oscila a lua.

E desato as amarras dos navios

e das palavras que me fazem tua.

.

Chegar é confessar que me desejas.

Calar é confirmar que não dispenso

o gesto em que, gaivota, me insinuo…

.

Se de leve no ombro tu me beijas,

pela seda da roupa te pertenço

pela sede da boca te possuo.

olhosnosolhos

Rosa Lobato de Faria