Breve poema da hora vã
Maio 1, 2017

Que poderei cantar-te nesta hora?

O século esgotou sua guitarra.

Não há surpresas nas sílabas de Abril.

Nem histórias para dizer.

.

Ainda se chovesse ou se caíssem rosas

para dentro do verbo

acontecer.

rosa gelada

Manuel  Alegre

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As palavras que eu digo
Março 17, 2015


As palavras que eu digo
sobre o aroma das flores
são palavras às cores,
que na minha alma respiro
e é nelas que cheiro,
que recordo e que vivo.

Como marinheiro em terra preso,
em minha mente navego
nas memórias agitadas
por vagas de pensamentos
levadas pelos ventos
à terra dos sentimentos
no coração atracado.

Cada porto de abrigo
é uma história que se conta
de um homem nascido,
tendo tudo vivido
que se faz das palavras que eu digo.

José Maria Almeida

meditação à beira mar
Agosto 20, 2014

 

olho agora tudo com o desprendimento
de quem nada mais tem a perder
que a si mesmo
e é tão pouco

se da vida esperei muito
dos homens nunca esperei tanto
mas é tão pouco o que deles vejo hoje
que ser mais um
é pedir de menos a mim próprio

não trago a verdade no bolso
nem a história é coisa que dono tenha
olho sinto e não entendo

continuo a gritar
dentro de um pesadelo

quem me roubou o sonho?

asruasdopensamento

A.H. Cravo

Eu luminoso não sou
Junho 3, 2012


Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
um poço mais remoto, e habitado
… de cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
secreto e intratável das águas interiores,
uma roda de céu ondulando se alarga,
digamos que é o mar: como o rápido canto
ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
o movimento de asas. O musgo é um silêncio,
e as cobras-d’água dobram rugas no céu,
enquanto, devagar, as aves se recolhem.

JOSÉ SARAMAGO, em PROVAVELMENTE ALEGRIA

O teu silêncio
Janeiro 7, 2012

O teu silêncio oculta as mentiras, histórias, que gostarias de contar-me.
Nele guardas as verdades, como jóias.

O teu silêncio oculta o amor que querias abraçar, até ao desespero .
Nele encerras as tuas angústias e lágrimas.

O teu silêncio oculta o caos da paixão.
Nele escondes as chamas que te devoram.

O teu silêncio oculta a verdade, até de ti próprio.
E cais num precipício sem fim…

Luísa L.

Agora que as palavras secaram
Junho 2, 2011

Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão.

No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.

Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.

Eduardo Pitta