No princípio
Novembro 14, 2015

No princípio, só a vida existia;
o mundo era o que havia
ao alcance da vida…
E mais nada.
.
Tudo era certo, simples, claro.
.
Quando o passado passar
(e passará, porque o passado é hoje),
e o futuro vier
(e há-de vir, porque o futuro é hoje),
então, sim; há-de saber-se tudo.
E tudo será certo, simples, claro.
.
Eu, porém, não sei nada.

estrelas

Reinaldo Ferreira

Dies Irae
Novembro 2, 2015

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
a mão do dedo sobre a nossa hora.
.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
todo o futuro a este dia de hoje.
.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
os motivos onde a alma se arrebata.
.
Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades cinzeladas
que deixam ver a vida que não temos
e as angústias paradas.

.
soledad_y_tristeza_by_magdalena220

Miguel Torga

Vida 2
Julho 21, 2011

 Depois de algum tempo
aprendemos a diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

Aprendemos que
amar não significa apoiar-nos e que companhia nem sempre significa segurança.

Aprendemos que beijos não são
promessas.

E começamos a aceitar
as derrotas com a cabeça erguida.

Aprendemos a construir a nossa estrada no hoje,
porque o amanhã é incerto…

Depois de algum tempo aprendemos que o sol
queima se ficarmos expostos por muito tempo.

E aprendemos que não importa o quanto nós nos
importamos, algumas pessoas simplesmente não se importam…

E aprendemos que não importa o quão boa seja uma
pessoa, ela vai ferir-nos de vez em quando e precisamos perdoá-la por
isso.

Aprendemos que falar pode
aliviar as nossas dores emocionais.

Descobrimos que levamos anos para construir
confiança e apenas segundos para destruí-la, e que podemos fazer coisas num
instante, das quais nos podemos arrepender o resto da vida.

Aprendemos que as verdadeiras amizades continuam
a crescer mesmo a longas distâncias.

E O QUE IMPORTA NÃO É O QUE TEMOS NA VIDA, MAS
QUEM TEMOS NA VIDA.

E os amigos são a família que nos permitiram
escolher.
Percebemos que
as pessoas que mais amamos na vida são levadas de nós muito depressa, por isso
devemos deixá-las sempre com palavras de afecto, porque pode ser a última vez
que as vemos.

Descobrimos que levamos muito tempo para nos
tornarmos na pessoa que queremos ser, mas que o tempo é curto.

Aprendemos que não importa onde já chegámos, mas
para onde vamos, e se soubermos isso, qualquer lugar serve.

Aprendemos que, ou controlamos as nossas acções
ou elas acabam a controlar-nos.

E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, porque em
todas as situações existem sempre dois lados.

Aprendemos que paciência requer muita prática.

Descobrimos que algumas vezes as
pessoas de que menos esperamos são aquelas que nos estendem a mão e ajudam a
levantar quando caímos.

Descobrimos
que só porque alguém não nos ama da forma que nós gostaríamos, isso não
significa que esse alguém não nos ame com tudo o que pode.

Aprendemos que nem sempre é suficiente ser
perdoado por alguém, algumas vezes temos que perdoar-nos a nós próprios.

Aprendemos que
não importa em quantos pedaços o nosso coração foi partido, o mundo não pára
para que o possamos consertar.

Aprendemos que o tempo não é algo que possa
voltar para trás.

Aprendemos que
somos realmente fortes.

E que a
vida tem muito valor e que nós temos muito valor perante a
vida!

William  Shakespeare

Ramo de flores
Outubro 14, 2010

Foi para vós que ontem colhi, senhora,
este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
tê-las-iam crestado antes da aurora.
   

Meditai nesse exemplo, que se agora
não sei mais do que o vosso ouro macio
rosto nem boca de melhor feitio,
a tudo a idade afeia sem demora.

 
Senhora, o tempo foge… o tempo foge….
Com pouco morreremos e amanhã
já não seremos o que somos hoje….

Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge….A vida é breve e é vã….
Por isso, amai-me. Enquanto sois bonita.

Solveig von Schoultz (1907-1996

Em teu louvor
Setembro 12, 2010

Hoje é que percebi : sigo esquecido e alheio,

e há muito tempo já que não falo de nós.

Não precisas no entanto de ter nenhum receio,

se versos não te dou, é que hoje, em meu enleio,

tudo esqueço por ti… quando estamos a sós…

Ontem, era o começo, era o sonho, ansiedade!

A vida uma esperança a repartir por dois…

Hoje… hoje é tão boa a nossa intimidade

que é bastante viver, e a própria realidade

não nos deixa pensar no que virá depois…

  …

Ontem, fiz do meu verso uma arma de conquista,

e teci confidências preludiando o amor…

Hoje, (perdoa se o homem sobrepuja o artista!),

quando em tua nudez, surge bela e imprevista,

minha alma em minhas mãos tem ânsias de escultor.

Vivamos!.. E prometo então para mais tarde

mil versos,(sabes bem que um dia hei-de fazê-los…).

Agora, basta que te deseje e te ame sem alarde

a mergulhar na sombra o rosto em teus cabelos.

Mais tarde, sim, mais tarde, hás-de tê-los, querida,

ressonâncias de amor, versos puros e francos,

cantos de ave ao sol poente, última ária da vida,

quando a noite cerrar meus olhos, comovida,

e o luar tingir de prata os teus cabelos brancos!…

Agora, não… Agora a vida é bela, é louca,

nos sentidos em festa e em sons primaveris;

é o beijo que procuro e mordo em tua boca!

…é a sombra que se vai… é a noite curta e pouca…

(são tão curtas as noites quando se é feliz!)

Sou assim, quando vivo não escrevo, vivo!

E não brotam meus versos de desejos vãos…

Se tenho em minhas mãos o teu corpo cativo,

é inútil insistir, meu pensamento é esquivo.

Só tu existes, tu! e a ânsia das minhas mãos…

Ontem, dava~te versos, versos que relias

com um estranho langor nos olhos extasiados…

Hoje, encho de beijos tuas mãos vazias,

e esquecidos do tempo, vão rolando os dias

…e as noites vão rolando em teus olhos cerrados!

Hoje é que percebi num segundo de sonho :

já não faço mais versos sobre o nosso amor…

Mas, que importa? Se vejo o teu olhar risonho…

os versos que em silêncio em teu corpo componho

são os mais belos talvez que faço em teu louvor!

J. G. Araújo Jorge