Horas breves de meu contentamento
Novembro 9, 2016

Horas breves de meu contentamento,

nunca me pareceu, quando vos tinha,

que vos visse mudadas tão asinha

em tão compridos anos de tormento.

.

As altas torres, que fundei no vento,

levou, enfim, o vento que as sustinha:

do mal, que me ficou, a culpa é minha,

pois sobre coisas vãs fiz fundamento.

.

Amor com brandas mostras aparece,

tudo possível faz, tudo assegura;

mas logo no melhor desaparece.

.

Estranho mal! Estranha desventura!

Por um pequeno bem, que desfalece,

um bem aventurar, que sempre dura!

castelo

Luiz de Camões

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É sempre agora
Outubro 7, 2016

O tempo não existe:
eu decreto assim.
Esses vultos esquivos
são rostos, são nomes,
são as horas felizes
(são o que foi embora?).

O tempo não existe:
tudo continua aqui,
e cresce
como uma árvore
pesada de frutos que são
máscaras, palavras, promessas,
bocas ferozes.

O tempo não existe:
tudo se resume ao instante.
O antes disso
é um rio que corre
mas não passa.
(Basta chamar:
é sempre agora).

foto12relogio

. Lya Luft    em    O Tempo é um Rio que Corre .

Colhe o dia porque és ele
Maio 22, 2016

Uns, com os olhos postos no passado,
veem o que não veem: outros, fitos
os mesmos olhos no futuro, veem
o que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto
a segurança nossa? Este é o dia,
esta é a hora, este o momento, isto
é quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
que nos confessa nulos. No mesmo hausto
em que vivemos, morreremos.
Colhe o dia, porque és ele.

natureza_rio

Ricardo Reis  (heterónimo de Fernando Pessoa)

Sexta canção da vida
Março 4, 2016

Vou:
disperso nas horas,
incerto nos passos.
.
Rezo:
Vida, havias de trazer horas brutais,
horas abertas,
rasgadas por minhas mãos ansiosas
de lúcidos temporais!
.
Penso:
se as não rasgar por minhas mãos,
a Vida não as dará jamais.

mãos

Manuel da Fonseca

Dies Irae
Novembro 2, 2015

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
a mão do dedo sobre a nossa hora.
.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
todo o futuro a este dia de hoje.
.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
os motivos onde a alma se arrebata.
.
Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades cinzeladas
que deixam ver a vida que não temos
e as angústias paradas.

.
soledad_y_tristeza_by_magdalena220

Miguel Torga

Dei-te os dias
Fevereiro 16, 2015

Dei-te os dias, as horas e os minutos
destes anos de vida que passaram;
nos meus versos ficaram
imagens que são máscaras anónimas
do teu rosto proibido;
a fome insatisfeita que senti
era de ti,
fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
conto as desilusões no rol do coração,
recordo o pesadelo dos desejos,
olho o deserto humano desolado,
e pergunto porquê, por que razão
nas dunas do teu peito o vento passa
sem tropeçar na graça
do mais leve sinal da minha mão…

máscara

Miguel Torga.

Ânsia
Janeiro 20, 2015

 

Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma.

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo.

espuma

Mia Couto  

 

em   “Raiz de orvalho e outros poemas”

A hora da alma
Setembro 7, 2014

Esta é a tua hora, ó alma, a do teu livre voo para lá das palavras,

dos livros, da arte, apagado o dia, concluída a lição,

quando tu emerges plenamente, silenciosa, absorta,

meditando sobre os temas que mais amas,

a noite, o sono, a morte e as estrelas.

Blue ridge mountain moon

WALT WHITMAN

Folhas de Erva

(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)

O tempo não importa
Maio 24, 2014

Na convivência, o tempo não importa.
Se for um minuto, uma hora, uma vida.
O que importa é o que ficou deste minuto,
desta hora, desta vida…
Lembra que o que importa
… é tudo que semeares colherás.
Por isso, marca a tua passagem,
deixa algo de ti,…
do teu minuto,
da tua hora,
do teu dia,
da tua vida.

Mário Quintana

Mário  Quintana

Quando eu me amei de verdade
Setembro 29, 2011


Quando eu me amei de verdade,

compreendi que em qualquer circunstância,

eu estava no lugar no lugar certo e na hora certa

e então pude ficar tranquilo.

Hoje sei que a isso se chama Auto-estima.

Quando eu me amei de verdade,

pude perceber que a minha angústia e sofrimento

não passam de um sinal de que estou a contrariar a minha verdade.

Hoje sei que a isso se chama Autenticidade.

Quando eu me amei de verdade,

parei de desejar que a vida fosse diferente,

e comecei a ver que tudo contribui para o crescimento.

Hoje sei que a isso se chama Amadurecimento.

Quando eu me amei de verdade,

percebi que é ofensivo forçar algo ou alguém a uma situação.

Hoje sei que a isso se chama Respeito.

Quando eu me amei de verdade,

comecei a livrar-me de tudo o que me diminuísse.

De início pensei que fosse egoísmo.

Hoje sei que a isso se chama Amor-próprio.

Quando eu me amei de verdade,

deixei de fazer grandes planos.

Hoje faço o que gosto, quando quero e no meu ritmo.

Hoje sei que a isso se chama Simplicidade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de querer ter sempre razão,

e com isso errei menos vezes.

Hoje sei que a isso se chama Humildade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de ficar só no passado e de me preocupar tanto com o futuro.

Agora mantenho-me mais no presente.

Hoje sei que a isso se chama Plenitude.

Charlie Chaplin