Da mais alta janela da minha casa
Julho 31, 2018

Da mais alta janela da minha casa
com um lenço branco digo adeus
aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
nem o rio esconder que corre,
nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
e eu sem querer sinto pena
como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro    em    “O Guardador de Rebanhos

Reza da manhã de Maio
Maio 19, 2017

 

Senhor, dai-me a inocência dos animais
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade,
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.

flor-da-pc3a1scoa11

Sophia de Mello Breyner Andresen.

Soneto VIII
Setembro 20, 2016

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz de guerra a que se vendem
a pura liberdade do meu canto,
.
um cântico de terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
.
tão quase é coisa ou sucessão que passa…
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da graça.

serena

Jorge de Sena

Falaram-me
Novembro 26, 2015

Falaram-me os homens em humanidade,
mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

loneliness1

Alberto Caeiro

Natural
Janeiro 8, 2015

Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam – Isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia,
numa época em que corre o sangue,
em que o arbitrário tem força de lei,
em que a humanidade se desumaniza,
não digam nunca: Isso é natural.
Para que nada passe por imutável.

Bertolt Brecht

Tradução livre: Chegamos num momento tão sério do mundo que o humor se tornou uma profissão de risco.

É muito sério o que aconteceu. Quando alguém cala uma voz que denuncia, e pior, em nome de uma divindade, há algo de muito errado nesse momento histórico.
A religião vem prezar pelo bem das pessoas, vem dar esperança para perseverar nesse mundo, mas, acima de tudo, vem para denunciar as injustiças para que haja igualdade e amor, para que a “terra seja como o céu”.
Esse grupo radical pode estar vingando o deus deles, mas está a conseguir disseminar a intolerância contra eles mesmos e difamar uma religião (que não conheço mas) que acredito que não seja como vem sendo propagada.
Assim, distorce-se tudo. As missões, as informações, a religião.
O mundo precisa de paz.
“E paz sem voz, é medo.”

Amostra sem valor
Março 15, 2011

Eu  sei  que  o  meu desespero não interessa a ninguém.

Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;

com ele se entretém

e  se  julga  intangível.

 

Eu  sei  que a Humanidade é mais  gente do que eu,

sei  que o mundo é maior do que o bairro onde habito,

que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,

não pesa num total que tende para infinito.

 

Eu  sei  que as dimensões impiedosas da Vida

ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,

nesta  insignificância, gratuita e desvalida,

universo sou eu, com nebulosas e tudo.

 

António Gedeão