Dias há
Setembro 29, 2019

Dias há,

em que o teu sorriso

é uma ilha perdida dentro de mim

e o teu nome

o vento que muda as estrelas

para o dorso das andorinhas.

.

Dias há,

em que procuro os teus olhos

e silenciosamente te digo “meu amor”,

como se eles fossem peixes

e as palavras animais estranhos

capazes de turvar a paz

das grandes profundidades.

Risco

Isabel Meyrelles

A noite na ilha
Maio 29, 2014

Dormi contigo toda a noite

junto ao mar, na ilha.

Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.

.

Os nossos sonos uniram-se

talvez muito tarde

no alto ou no fundo,

em cima como ramos que um mesmo vento agita,

em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

.

O teu sono separou-se

talvez do meu

e andava à minha procura

pelo mar escuro

como dantes,

quando ainda não existias,

quando sem te avistar

naveguei a teu lado

e os teus olhos buscavam

o que agora

– pão, vinho, amor e cólera –

te dou às mãos cheias,

porque tu és a taça

que esperava os dons da minha vida.

.

Dormi contigo

toda a noite enquanto

a terra escura gira

com os vivos e os mortos,

e ao acordar de repente

no meio da sombra

o meu braço cingia a tua cintura.

Nem a noite nem o sono

puderam separar-nos.

.

Dormi contigo

e, ao acordar, a tua boca,

saída do teu sono,

trouxe-me o sabor da terra,

da água do mar, das algas,

do âmago da tua vida,

e recebi teu beijo,

molhado pela aurora,

como se me viesse

do mar que nos cerca.

ilha

Pablo Neruda

Dia 255 (excerto)
Julho 3, 2012

Esta manhã foi a mais bela de todas as manhãs.
… Cheia de ti. Do teu brilho,do teu cheiro, do teu
sorriso igual ao das maçãs.
Ainda tenho nos meus olhos o brilho dos teus
olhos. Nunca, como hoje, desejei estar contigo
numa ilha. Uma ilha deserta, mas cheia de nós.
E à tua pergunta natural: “o que é que estamos
aqui a fazer?”, eu responderia também
naturalmente: “se cá estamos,

é porque fazemos cá falta!”.

JOAQUIM PESSOA,  em  ANO COMUM (Litexa, 2011)

Ao anoitecer
Setembro 21, 2009

E ao anoitecer adquires nome de ilha ou vulcão

deixas viver sobre a pele uma criança de lume

e na fria lava da noite ensinas ao corpo

a paciência  o amor  o abandono das palavras

o silêncio

e a difícil arte da melancolia.

anoitecer

Al Berto

Ternura
Julho 23, 2008

Eu te peço perdão por te amar de repente

embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos,

das horas que passei à sombra dos teus gestos,

bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos,

das noites que vivi acalentado

pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo.

Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente

e  posso te dizer que o grande afeto que te deixo

não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas,

nem as misteriosas palavras dos véus da alma…

É  um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias,

e  só te pede que te repouses quieta, muito quieta,

e  deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade

o olhar extático da aurora.

alone

 Vinícius de Moraes

Quando as palavras
Junho 23, 2008

Quando as palavras abrem canais de transparência

entre as ilhas fechadas de azedume ou desespero

da nossa solidão

uma alegria sempre nova

escancara as portas todas para o sol

e  eu volto logo inteiro com cega impaciência

para onde jurei mil vezes nunca mais voltar.

.

Deslumbra-se o coração

aberto em girassol.

.

É  como respirar.

  Mário  Dionísio