Forma
Agosto 9, 2016

Procurava um estilo – algo que se pusesse no

poema como um chapéu para a chuva ou para o

sol. Queria vestir a linguagem, a estrofe, o verso

com a insólita elegância do equilibrista. Lia

em voz alta os poemas dos outros como se fossem

seus; e, no entanto, não conseguia sair da

“aurea mediocritas”, do tom baixo que caracteriza

os simples imitadores, Uma noite, aproveitou

o isolamento da rua para se observar a si

próprio no reflexo de uma porta de vidro. “Quem

és?”, perguntou à sua imagem; e não se espantou

com o silêncio que lhe respondeu. Não era ele,

afinal, incapaz de explicar fosse o que fosse

da vida ? Construía ilusões e deixava que elas

se esfumassem sem se preocupar em fixar a

sua imagem – afinal, aquilo de que os poemas são

feitos. E o inverno passou, com o fogo das suas

águas; uma primavera trouxe-lhe o nome que há

muito se desabituara de chamar; julho e agosto

prostraram-no na hesitação das tardes. Para quê

escrever? Porém, as nuvens do outono desceram ao

nível dos telhados; os dias ficavam mais curtos;

o vento do norte chegava com uma dicção de

antigas folhas. Pensa que os mortos te visitam;

abre-lhes a página; e descobre que és um deles,

envolto num lençol de névoa e de retórica.

Moon and cloud.

Nuno Júdice

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Quási
Maio 28, 2016

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse àquém…

 

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
num baixo mar enganador de espuma;
e o grande sonho despertado em bruma,
o grande sonho – ó dôr! – quási vivido…

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
quási o princípio e o fim – quási a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
asa que se elançou mas não voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indicios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
e mãos de herói, sem fé, acobardadas,
puseram grades sôbre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
das coisas que beijei mas não vivi…

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol – e fôra brasa,
um pouco mais de azul – e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza…
Se ao menos eu permanecesse àquem…

folhas de roseira

 

 

Mário de Sá-Carneiro     em     ‘Dispersão’

Sempre que te vais
Junho 11, 2015

Sempre que te vais,

fico sempre mais pobre,

quando ficas é sempre tão cedo.

Dos cigarros mal apagados que ficaram, do suor,

dos lençóis despenteados, das cruzes.

aflitos subimos o muro das ilusões.

Que cobardes que éramos não fosse o amor!

Damo-nos, despimos as máscaras, deixamo-nos à mercê dos deuses.

Brincamos, choramos e ainda temos tempo de ver nascer o dia.

Tu partes, levas-me e eu fico mudo por dentro.

É preciso muita coragem para amar, ver partir,

e voltar a vestir o fato já gasto da civilização!

solslslslsl

Daniel  Dias

Momentos escuros
Janeiro 28, 2014

Em meus momentos escuros
em que em mim não há ninguém,
e tudo é névoas e muros
quanto a vida dá ou tem,
.
se, um instante, erguendo a fronte
de onde em mim sou aterrado,
vejo o longínquo horizonte
cheio de sol posto ou nado
.
revivo, existo, conheço,
e, ainda que seja ilusão
o exterior em que me esqueço,
nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

 

fernando-pessoa 2

Fernando Pessoa

(Artes & Poesias)

Não saibas : imagina
Novembro 19, 2012

Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
que o mar não cabe
na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
de ilusões…
Um á-bê-cê secreto
que soletres à margem das lições…

Voa pela janela
de encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
vais ao colo das brisas,
aias da fantasia…

Miguel Torga

Foto: João Carvalho (21 de Agosto de 2012)

Recomeça
Maio 5, 2012

Recomeça… se puderes,

sem angústia e sem pressa

e os passos que deres,

nesse caminho duro

 do futuro,

dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances,

não descanses,

de nenhum fruto

queiras só metade.

E, nunca saciado,

vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

o logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

onde, com lucidez, te reconheças…

.

Miguel Torga

Solidão
Dezembro 4, 2010

Solidão

Pedaços de mim quebrados

Vontades apagadas

Sonhos vãos

Mãos fechadas

Apertando ilusões mortas

Como florestas

Cerradas e incertas

De árvores que crescem tortas

E  é tudo assim em mim

Um dia sim… e outro sim

E  por vezes julgo que esqueço

E  que alguma coisa apeteço

Mas não

É  sempre  solidão…

m j rijo

Andei à minha procura
Maio 28, 2010

 

Andei á minha procura
P’las ruas onde nasci
Percorri minha amargura
Da procura, nada vi

Fui procurar na alegria
No sonho, no sofrimento
Só encontrei foi tormento
De sonhos estava vazia

Então passei p’la saudade
P’la rua e p’lo meu jardim
Perguntei à mocidade
Se havia sinal de mim

Fui aos sonhos de criança
Mas sabia de antemão
Que qual fosse a lembrança
Me feriu o coração

Andei á deriva no mar
Destas minhas ilusões
Mas só sofri decepções
Pois não me fui encontrar

E nesta procura de dor
De tanto procurar enfim
Encontrei-te meu amor
No que restava de mim.

Autor desconhecido

 

Ilusão
Janeiro 25, 2010

Eu quero um amor são, verdadeiro,

que une, que partilha, que acarinha,

que dá a paz, que rompe a solidão.

Amor perfeito, amor passageiro,

voando ao largo, como uma andorinha,

Dandelion

fugindo sempre, como uma ilusão…

Diana Sá

Verdade
Julho 13, 2009

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A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade,

e a sua segunda metade

voltava igualmente com meios perfis

e  os meios perfis não coincidiam verdadeiramente…

Arrebentaram a porta.

Derrubaram a porta,

chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela

e  carecia optar.

Cada um optou conforme

seu capricho,

sua ilusão,

sua miopia.

 

Carlos Drummond de Andrade