Cansaço
Fevereiro 18, 2009

O que há em mim é sobretudo cansaço,

não disto nem daquilo,

nem sequer de tudo ou de nada :

cansaço assim mesmo, ele mesmo,

cansaço.

…..

A subtileza das sensações inúteis,

as paixões violentas por coisa nenhuma,

os amores intensos por o suposto alguém.

Essas coisas todas –

essas coisas e o que faz falta nelas eternamente –

tudo isso faz um cansaço,

este cansaço,

cansaço.

…..

Há sem dúvida quem ame o infinito,

há sem dúvida quem deseje o impossível,

há sem dúvida quem não queira nada –

três tipos de idealistas, e eu nenhum deles :

porque eu amo infinitamente o finito,

porque eu desejo impossivelmente o possível,

porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

ou até se não puder ser…

…..

E o resultado ?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

para eles o sonho sonhado ou vivido,

para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…

Para mim só um grande, um profundo,

e, oh com que felicidade, infecundo, cansaço,

íssimo, íssimo, íssimo,

cansaço.

noite

 Álvaro de Campos