É verdade
Fevereiro 24, 2020

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É verdade «que um baixo amor os fortes enfraquece»
mas também o grande amor torna ridículos os grandes,
pois o amor é, em energia material sobre o mundo, um roubo— apesar de, em sensações, ser magnífico. 0 amor será útil internamente,
mas externamente não carrega um tijolo.
Disso nunca tive dúvidas.

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A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões.
Nos países humanos, o amor mistura-se muito
com palavras equívocas.
0 fogo que existe numa lareira, por exemplo,
é um fogo servil, cultural, educado.
Uma coisa vermelha, mas mansa,
que nos obedece.
Só é natureza, o fogo na lareira,
quando, vingando-se, provoca um incêndio.
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário.

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É desarranjo de estratégias e planos,
surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltante que não prejudica
os vizinhos.
Mas atenção, de novo: o amor não faz bem aos países,
não desenvolve as suas indústrias, nem a economia.
Disso nunca tive dúvidas. E por isso é preferível não.

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No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor
entre? Não é mercadoria traficada em caixas,
que as caixas são objectos que se abrem ao meio
— e é possível, com uma lanterna, olhar lá para dentro.

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0 amor não se vê como
se fosse uma presença.
É demasiado completo
para ter uma forma. E como jamais
se conseguiram obter juros de uma coisa
que não ocupa espaço, é preferível não,
parece-me.

Gonçalo M. Tavares     em    “Uma Viagem à Índia”

Talvez
Fevereiro 16, 2012

Talvez um destes dias
ao regressar por palavras desertas
de ausentes poemas
não encontre ninguém
real
que me abra a porta.

Talvez essa porta presa por um fio
no limiar do vento
se tenha já desvanecido
entre brumas e cansaços
ou talvez nem tenha existido,
um dia.

Os meus olhos cegos de ver
secarão, talvez.
O meu nome ter-se-á perdido
das vozes dos pássaros e ninguém
mais o pronunciará.

Há nisso um fio de sangue a verter,
uma mancha vermelha em redor de sonhos
desfigurados.
Mas há nisso ainda um leve estremecer,
uma pequena chama
a clamar por um sopro
que a faça incêndio.

LÍDIA BORGES

1990
Setembro 15, 2011

Se soubesse o que procuro
saberia que água pedir neste momento
e a que árvore pertence
este rumor de folhas sob o vento.

De quanto quis saberia a entoação
a que o coração responde nos ardis
que a obscuridade entrega
quando o contágio da memória
me absolve do que nunca deveria
arrepender-me.

Quanto busco não só é indizível
como não tem refúgio certo
entre os ramos hostis do reencontro,

esse incêndio do acaso no ocaso.

Amadeu  Baptista


As palavras
Janeiro 22, 2009

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho  apenas.

………

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam :

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

………

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e  são a noite.

E  mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

………

Quem as escuta ? Quem

as  recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras ?

coraislf4

 Eugénio de Andrade