Canção da breve serenidade
Outubro 10, 2019

chuva

Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.

Penso nas violetas e nos jardins em flor.

Desce ao meu coração uma paz sem memória.

Desce ao meu coração uma doçura imensa…

.

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado

A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,

a rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga

Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

.

Sinto a vida como a chuva descendo

sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo.

Sinto que o tempo é bom porque não pára nunca.

.

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,

vontade de dormir o grande sono calmo

ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt

Bié – o regresso falhado a casa
Março 2, 2019

A casa alberga o mapa da linguagem

o relógio antigo da avó

a ampulheta imemorial

que conta os grãos perdidos do tempo.

A casa aloja o próprio tempo

a raiz dos primeiros passos

aqueles que me casaram

com a respiração do mundo.

.

Hoje ao cair da tarde

no controlo militar de Silva Porto – Gare

eles não me deixaram passar

“Se você passas daqui, vais para a morte”-

disseram.

.

Fiquei a olhar o cano das espingardas

o rumor dos gatilhos na face

atravessei a minha infância em segundos

com os olhos húmidos.

Eu vi ao longe o meu passado

perdido na grande noite escura.

Depois daquele dia

nunca mais fui o mesmo

nunca mais pertenci

a mim próprio.

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António Costa Silva

Carta à minha filha
Junho 4, 2018

 

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas – é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.
E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

menina

Ana Luísa Amaral,   em    ‘Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)’

A verdadeira liberdade
Novembro 15, 2016

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
a liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
a grande liberdade cristã da minha infância que rezava
estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
a noção jurídica da alma dos outros como humana,
a alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
e beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da mão do amigo [sério?]…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
da casa do campo da minha velha infância…
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?”

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Álvaro de Campos   em   “Poemas (Inéditos)

Já me disseste tanta coisa
Setembro 26, 2016

Já me disseste tanta coisa!

Já me disseste que tiveste uma infância infeliz,

já me disseste que o teu grande amor te tinha desiludido.

Já me disseste que a solidão mata mais depressa do que um tiro.

Já me disseste que não ouvias ninguém,

que querias que te deixassem em paz!

Eu disse-te que visses o pôr-do-sol.

Disse-te para te rires às gargalhadas do absurdo da vida.

Já te disse que te comovesses com o sorriso duma criança.

Já te disse que é um milagre a vida e estar vivo,

e devemos agradecer esta dádiva.

Já não sei o que te dizer mais, meu amor!

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Daniel  Dias

Murmúrios
Junho 22, 2016

Perseguem-me dias sempre iguais,
Num cais da infância
Entre as paredes do meu quarto.
Quatro paredes de lágrimas

Por vezes búzios em valsa pela enseada
Dos murmúrios.

A noite persegue-me entretanto
Essências do rosmaninho enlaçados de alecrim,
Cantatas de pinheiros mansos e suas
Resinas frescas.

Perseguem-me as palavras que não sei dizer,
O fado que não sei cantar,
Persegue-me a morte que não sei morrer…

Minha sina é esta,
Ter esta condição!
Não saber o que é o abraço de um irmão,
Ter dançado com as feiticeiras na eira
E observado tarde demais que a Lua era similar
À roda da carroça
Que o meu avô guardava no telheiro.

Ter entendido o amor assim que o perdi
Quando nas minhas asas já quebradas eu deixava sucumbir todo o Infinito, todas as fogueiras, todas as ausências de um querubim
E parti de mim no murmúrio sereno das fontes.

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© Célia Moura, (inédito) 19.IV.2016

Passagem do outro lado
Outubro 1, 2015

Somos confusos como as florestas.
.
Tu, e eu (e todos nós),
temos enredos na voz,
armaduras e espessuras
que nos encobrem de nós.
.
Anda.
Percorre-me sem desvios,
inteira, plena, despida,
infância desprevenida
sem roupas e sem atavios.
.
Anda.
Rasga esta verde espessura
com os teus gestos afiados.
Insinua-te, procura,
derrama a tua brancura
nos trilhos enviesados.
Progride e canta. Penetra
neste matagal bravio,
desembrulhada e erecta
como a vela dum navio.
Singra, desliza suave
como gota que escorresses,
como luar que batesses,
penugem que esvoaçasses.
.
Entra e serve-te. Verás,
ou caídos ou suspensos,
frutos de aromas intensos

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que em silêncio morderás.
Teus dentes lhe darão sumo,
teus lábios lhe darão gosto
e o veludo que presumo
macio como o teu rosto.
.
Tuas mãos os farão belos
e alegres como facetas,
verdes, azuis, amarelos,
vermelhos e violetas.
.
De um arrepio, na espessura,
toda a floresta estremece.
Eu dou-te a minha loucura.
Dá-me o canto que a adormece.

António Gedeão

Ah, no silêncio do quarto
Junho 18, 2013

Ah, no terrível silêncio do quarto
o relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.

criança

ÁLVARO DE CAMPOS (FERNANDO PESSOA), em LIVRO DE VERSOS
(16-8-1929)

45 lições que a Vida me ensinou
Dezembro 1, 2011

thais rozza

Para celebrar o envelhecer, Regina Brett, que completou 90 anos e mora em Cleveland, Ohio, uma vez escreveu 45 lições que a vida ensinou para ela. É a coluna mais requisitada que ela já escreveu.

 A vida não é justa, mas ainda é boa.

 Quando estiver em dúvida, apenas dê o próximo pequeno passo.

 A vida é muito curta para perdermos tempo odiando alguém.

 Seu trabalho não vai cuidar de você quando você adoecer.

Seus amigos e seus pais vão.

Mantenha contato.

 Pague suas faturas de cartão de crédito todo mês.

 Você não tem que vencer todo argumento.

Concorde para discordar.

 Chore com alguém.

É mais curador do que chorar sozinho.

 Está tudo bem em ficar bravo com Deus.

Ele agüenta.

 Poupe para aposentadoria começando com seu primeiro salário.

 Quando se trata de chocolate, resistência é em vão.

 Sele a paz com seu passado para que ele não estrague seu presente.

 Está tudo bem se teus filhos te virem chorar.

 Não compare sua vida com a dos outros.

Você não tem idéia do que se trata a jornada deles.

 Se um relacionamento tem que ser um segredo, você não deveria estar nele.

 Tudo pode mudar num piscar de olhos; mas não se preocupe Deus nunca pisca.

 Respire bem fundo.

Isso acalma a mente.

 Se desfaça de tudo que não é útil, bonito e prazeroso.

 O que não te mata, realmente te torna mais forte.

 Nunca é tarde demais para se ter uma infância feliz.

Mas a segunda só depende de você e mais ninguém.

 Quando se trata de ir atrás do que você ama na vida, não aceite não como resposta.

 Acenda velas, coloque os lençóis bonitos, use a lingerie elegante.

Não guarde para uma ocasião especial.

Hoje é especial.

 Se prepare bastante, depois se deixe levar pela maré…

 Seja excêntrico agora, não espere ficar velho para usar roxo.

 O órgão sexual mais importante é o cérebro.

 Ninguém é responsável pela sua felicidade além de você.

,,,

 Encare cada “chamado” desastre com essas palavras:

Em cinco anos, vai importar?

 Sempre escolha a vida.

 Perdoe tudo de todos.

 O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.

 O tempo cura quase tudo.

Dê tempo.

 Independentemente se a situação é boa ou ruim, irá mudar.

 Não se leve tão a sério.

Ninguém mais leva…

 Acredite em milagres.

 Deus te ama por causa de quem Deus é.

E não pelo o que você fez ou deixou de fazer.

 Não faça auditoria de sua vida.

Apareça e faça o melhor dela agora.

 Envelhecer é melhor do que a alternativa – morrer jovem.

 Seus filhos só têm uma infância.

 Tudo o que realmente importa no final é quem você amou.

 Vá para a rua todo dia.

Milagres estão esperando em todos os lugares.

 Se todos jogassem nossos problemas em uma pilha e víssemos os de todo mundo, pegaríamos os nossos de volta.

 Inveja é perda de tempo.

Você já tem tudo o que precisa.

 O melhor está por vir.

 Não importa como você se sinta, levante, se vista e apareça.

 Produza.

 A vida não vem embrulhada em um laço, mas ainda é um presente.

Precisa-se um amigo
Novembro 7, 2010

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor…
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo.
Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.
Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

 

Vinicius de Moraes