Sete
Junho 6, 2017

Pelas sete da tarde

é que o sonho começa:

a tua mão na minha

e a minha cabeça

encostada ao teu ombro.

Depois é o assombro

do amor reencontrado

a sós no nosso canto.

O silêncio e o espanto

a paixão o segredo

a recusa do medo

o meu falar alegre

o teu livro tão sério

a música tão leve

o instante tão breve

o sono e o mistério.

.

Às sete da manhã

é que o sonho termina.

E afrontamos o dia

a tua mão na minha

um trejeito na alma

um tremido na boca

até que a multidão

me leva e me sufoca

e nos desprende e solta

os meus dedos nos teus.

.

Há um barco que chega

um comboio que chora.

Num mar de gente à deriva

eu náufraga da hora

ergo um braço no ar

p’ra te dizer adeus.

beijinho

Rosa Lobato de Faria

É sempre agora
Outubro 7, 2016

O tempo não existe:
eu decreto assim.
Esses vultos esquivos
são rostos, são nomes,
são as horas felizes
(são o que foi embora?).

O tempo não existe:
tudo continua aqui,
e cresce
como uma árvore
pesada de frutos que são
máscaras, palavras, promessas,
bocas ferozes.

O tempo não existe:
tudo se resume ao instante.
O antes disso
é um rio que corre
mas não passa.
(Basta chamar:
é sempre agora).

foto12relogio

. Lya Luft    em    O Tempo é um Rio que Corre .

Canção contra o Destino
Maio 28, 2013

Se é para morrer

quero morrer muitas vezes,

mais do que as que soube ter vivido

e fui eterno sem o saber.

.

Se é para morrer

morrerei tantas vezes

que entre corpo e tempo

minha alma perderá caminho.

.

E morrerei

de tudo, em cada instante.

.

Morrerei até ser árvore,

renascendo em estação

para além do tempo, para além da luz.

.

Se é para morrer

que seja como o amor :

tanto e sempre

que não será derradeira a última vez.

Mia Couto

Reminiscência
Maio 11, 2012

Os instantes que vivo
… não são a minha vida:
ela voa perdida
no desenho furtivo
de uma breve asa ferida
daquele pássaro esquivo
que anda desaparecido
e continua à deriva
desde que sou crescido
e perdi o sentido
da verdade mais viva.

E por mais que persiga
esse rasto infinito
não há voz que me diga
se a memória de um grito
é tudo o que me liga
ao primeiro suspiro
dessa ave iludida
cujas asas eu firo
sem saber se consigo
descobrir a saída
rumo àquele céu antigo
onde deixei a vida.

FERNANDO PINTO DO AMARAL,  em  “Poemas Escolhidos “

Finalmente vivo
Abril 3, 2012

Vivamos cada instante com profunda intensidade.

Se a vida é uma verdadeira dádiva do Universo,

quem somos nós para abreviá-la com infelicidade?

.

Pela manhã levantemo-nos em paz com as nossas dores.

Fiquemos em paz e harmonia com o espelho,

sem nos culparmos pela vaidade ferida.

Fiquemos em paz com os nossos valores,

exorcizando todas as angústias e mágoas.

.

Para que os outros nos aceitem como somos,

nós é que temos de nos aceitar primeiro,

naquilo que temos de imperfeito.

Amando e curando as nossas feridas,

aquelas bem fundas, onde só nós lá chegamos.

.

Mesmo que a vida se mostre vazia de significados,

e que tudo à nossa volta pareça conspirar contra nós.

Fundamental é mesmo não esquecer e ter presente,

que só nós somos os juízes das nossas vidas.

Da minha parte confesso já ter perdido a pressa,

que foi preciso passar pela dor do orgulho ferido,

para descobrir o verdadeiro significado da minha vida.

Finalmente sou coerente quando digo que vivo!

Luís Pedro Proença   em   Alma Zen

 

Instante
Fevereiro 11, 2012

Se tanto me dói que as coisas passem
é porque cada instante em mim foi vivo
na busca de um bem definitivo
em que as coisas de amor se eternizassem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A uma mulher
Maio 18, 2011

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
estavas trémula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
e a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
e que era preciso fugir para não perder o único instante
em que foste realmente a ausência de sofrimento
em que realmente foste a serenidade.

 

Vinicius  de  Moraes

A mim, na minha mão…
Janeiro 19, 2009

A mim, na minha mão, como o pássaro pousa

inocente e sem medo, amor pousou de leve

sendo que vinha saltitando em espasmos lentos

de  que se acrescentava a cada passo em carne.

Mas veio e se pousou malicioso e tenso,

tão desbragado e audaz no se entregar a mim

que a minha mão estendida ansiosa estremecia

de ver como sorria aquele amor em voo.

Pousou assim de leve  em minha mão aberta,

um pássaro tranquilo a mim se dando inteiro.

Um instante apenas foi. Silente não falou,

e  logo se acabou deixando só as lembranças.

Que triste este viver de só falar mais tarde !

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 Jorge de Sena