Em frente do mar
Junho 22, 2012

Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?,
… que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo,
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu,
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
em que me puxaste para longe da cidade, como se
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou a nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir,
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer.

NUNO JÚDICE,  em  O ESTADO DOS CAMPOS

Do sentimento trágico da Vida
Junho 29, 2011


Não há revolta no homem 

que se revolta calçado. 
O que nele se revolta 
é apenas um bocado 
que dentro fica agarrado 
à tábua da teoria. 

Aquilo que nele mente 
e parte em filosofia 
é porventura a semente 
do fruto que nele nasce 
e a sede não lhe alivia. 

Revolta é ter-se nascido 
sem descobrir o sentido 
do que nos há-de matar. 

Rebeldia é o que põe 
na nossa mão um punhal 
para vibrar naquela morte 
que nos mata devagar. 

E só depois de informado 
só depois de esclarecido 
rebelde nu e deitado 
ironia de saber 
o que só então se sabe 
e não se pode contar. 

Natália Correia   em   “Poemas (1955)”

Frustração
Fevereiro 18, 2011

Foi bonito

o meu sonho de amor.

Floriram em redor

todos os campos em pousio.

Um sol de Abril brilhou em pleno Estio,

lavado e promissor.

Só que não houve frutos

dessa primavera.

A vida disse que era

tarde demais…

E que as paixões tardias

são ironias

dos deuses desleais.

Miguel  Torga