O Vento
Agosto 15, 2017

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.

Cecília Meireles    em     “Mar Absoluto”

Reza da manhã de Maio
Maio 19, 2017

 

Senhor, dai-me a inocência dos animais
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade,
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.

flor-da-pc3a1scoa11

Sophia de Mello Breyner Andresen.

Deixem passar
Março 10, 2016

 

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
beber água de Sonho a qualquer fonte;
ou colher açucenas
a um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
e onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
uma estrela no chão.

(1932) Miguel Torga

Foto de Páginas Em Poesia.

Flor
Março 21, 2014

Conheço uma flor de pétalas brancas

quando a corto do caule, amarelas

se as ponho ao sol, vermelhas ao

metê-las no cálice que ela enfeita.

.

É uma flor que tem todas as cores

que eu quiser; mas só ela mas

dá, quando a roubo ao seu jardim,

e só para mim brilha e floresce.

.

Esta flor é única: não seca

nem morre, e alimenta-se do que

lhe digo, em segredo, neste canto.

.

Há flores que não precisam de terra

nem de sol para viver. A sua terra

é o poema, o seu sol o amor que as faz crescer.

Flor fantástica

Nuno  Júdice

Novo Ano
Dezembro 31, 2013

Malta!

Ouçam a terra a girar!

Estremeçam, sente-se o ano a chegar!

Olhem, o nevoeiro denso

ávido e intenso, a vir do mar.

Preparem-se que a guerra é hoje.

Chegou ontem pela calada,

os castelos estão tomados,

os jardins amordaçados.

Acordem todos, alerta e bem

que o amanhã é uma traça

tão negra no futuro que nos colhe

que entre os dedos da desgraça

sem chegar nos ultrapassa.

Malta, todos na mesma? Arre!

Às armas, em pé, peito ao vento

que eu nem sei como aguento.

Mas nada foi diferente!

Povo dolente e tudo dormente!

Há tanto que começou

o tempo da incoerência

que eu ardo de impaciência.

Malta! Olhem o louco horizonte!

Pum! Ano Novo e agora?

Bom Ano? Há quem mereça?

Pum! Nevoeiro! Caiu a ponte!

De quem é esta cabeça?

Conceição Roque da Silveira

Mulher
Agosto 15, 2012

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

ANTÓNIO RAMOS ROSA, em O TEU ROSTO

?
Abril 9, 2012

Quem fez ao sapo o leito carmesim

de rosas desfolhadas à noitinha?

E quem vestiu de monja a andorinha,

e perfumou as sombras do jardim?

.

Quem cinzelou estrelas no jasmim?

Quem deu esses cabelos de rainha

ao girassol? Quem fez o mar? E a minha

alma a sangrar? Quem me criou a mim?

.

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?

Santa Teresa em místicos arroubos?

Os monstros? E os profetas? E o luar?

.

Quem nos deu asas para andar de rastros?

Quem nos deu olhos para ver os astros

– sem nos dar braços para os alcançar?

Florbela  Espanca

Onde pus a ‘sperança
Fevereiro 1, 2012

Onde pus a ‘sperança, as rosas

murcharam logo.

Na casa, onde fui habitar

o jardim, que eu amei por ser

ali o melhor lugar,

e por quem essa casa amei –

deserto o achei,

e, quando o tive, sem razão p’ra o ter.

.

Onde pus a afeição, secou

a fonte logo.

Da floresta, que fui buscar

por essa fonte ali tecer

seu canto de rezar –

quando na sombra penetrei,

só o lugar achei

da fonte seca, inútil de se ter.

.

P’ra quê, pois, afeição, ‘sperança

se perco, logo

que as uso, a causa p’ra as usar,

se tê-las sabe a não as ter?

.

Crer ou amar –

até à raiz, do peito onde alberguei

tais sonhos e os gozei,

o vento arranque e leve onde quiser

e eu os não possa achar !

Fernando  Pessoa

Antes que seja tarde
Maio 4, 2011

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.


Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel  da  Fonseca

Despojo
Novembro 20, 2010

E, agora, o que faremos?

A quem legar o que resta

Do simulacro de festa

Que tivemos?

 

Quem aproveita os detritos

De uma alegria forçada?

Quem confunde aflitos gritos

Com imposta gargalhada?

 

Iremos por onde alguém

Descubra os nossos farrapos.

Vês flores no jardim de além?

– Vejo sapos.

 

 António Manuel Couto Viana , Voo Doméstico