Aos meus companheiros de Angola
Dezembro 14, 2015

Éramos jovens.
Sonhámos um futuro novo.
Estávamos longe de pensar
que o futuro é velho.
Às vezes está em crise
como um bêbado
à procura do seu centro de gravidade.
.
Éramos jovens.
Tínhamos a vida inteira à nossa frente.
Namorámos a manhã
com a alma virada para o mar.
Cultivámos a paixão, o amor,
os beijos, a viagem.
Lutámos contra a opressão,
contra toda e qualquer opressão.
Éramos jovens.
Tínhamos sede de justiça e de luz.
Sonhámos um país diferente,
como um poema cintilante.
Descobrimos que os países ignoram
a gramática da poesia.
Os países são coisas banais, primitivas,
habitadas pelo mal
e o mal mistura-se com o bem.
Líquidos miscíveis,
tudo é mais turvo e mais difícil.
.
Hoje alguns de nós querem reviver tudo,
refundar o passado,
investigar porque falhámos.
Ainda bem que falhámos.
Dormimos tranquilos e sãos.
A nossa alma está limpa e sábia.
.
Éramos jovens
e sonhámos um futuro novo.
Estávamos longe de pensar
que o futuro é velho
e recebe visitas ao fim da tarde.
alegria

António Costa Silva

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Não perguntes
Outubro 30, 2013

De onde vem? De que fonte

ou boca

ou pedra aberta?

É para ti que canta

ou simplesmente

para ninguém?

Que juventude

te morde ainda os lábios?

Que rumor de abelhas

te sobe à garganta?

Não perguntes, escuta:

é para ti que canta.

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Eugénio de Andrade

Segundo Andamento
Dezembro 23, 2010

 

Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Para quem quiser ver a vida está cheia de nascimentos.
Nascemos muitas vezes ao longo da infância quando os olhos se abrem em espanto e alegria.
Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca.
Nascemos na sementeira da vida adulta,
entre invernos e primaveras maturando
a misteriosa transformação que coloca na haste a flor
e dentro da flor o perfume do fruto.
Nascemos muitas vezes naquela idade
onde os trabalhos não cessam, mas reconciliam-se
com laços interiores e caminhos adiados.
Enganam-se os que pensam que só nascemos uma vez.
Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar.
Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de algumas lágrimas.
Nascemos na prece e no dom.
Nascemos no perdão e no confronto.
Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra.
Nascemos na tarefa e na partilha.
Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos.
Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.

José Tolentino de Mendonça

E tudo era possível…
Junho 14, 2010

 

Na minha juventude antes de ter saído

da casa dos meus pais disposto a viajar,

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido.

Chegava o mês de maio era tudo florido,

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido.

E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer.

Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer.

Ruy Belo