Os difíceis amigos
Setembro 13, 2014

Estes mortos difíceis
que não acabam de morrer
dentro de nós; o sorriso
da fotografia,
a carícia suspensa, as folhas
dos estios persistindo
na poeira; difíceis;
o suor dos cavalos, o sorriso,
como já disse, nos lábios,
nas folhas dos livros;
não acabam de morrer;
tão difíceis, os amigos.

adeus

Eugénio de Andrade.

Passagem
Julho 23, 2013

passage

 

Com que palavras ou que lábios

é possível estar assim tão perto do fogo,

e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,

tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,

e não só uma voz de ninguém.

Onde, porém? Em que lugares reais,

tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,

e estamos, se possível, ainda mais sós,

sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e como diremos rios?

À Inês

Manuel António Pina   em    Como se desenha uma casa (Assírio & Alvim)

isto vai
Julho 25, 2011

por noites de insónia e de alcatrão

por laranjais e lábios ressequidos

pelo desespero na voz e escuridão

isto vai caro amigo (…)

pelo cabo axial que liga a nossa esperança

pela luz dos cabelos pelo sal

pela palavra remo pela palavra ódio

isto vai caro amigo (…)

pelos carris do medo pelas árvores

pela inocência e fome pelos perigos

pelos sinais fraternos pelas lágrimas

isto vai caro amigo

pela dureza do espaço

e em jardins falsíssimos

isto vai caro amigo

João Rui de Sousa   Ça ira

Retrato
Maio 15, 2011

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

Diz-me o teu nome
Dezembro 15, 2009

Diz-me o teu nome – agora que perdi

quase tudo, um nome pode ser o princípio

de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos – como as poeiras se

escrevem, irrequietas, nos caminhos, e os

lobos mancham o lençol de neve com os

sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para

dentro de outro – assim conquista o vento

o tímpano das grutas e entra o bafo do verão

na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar : é um poema

açucarado que se derrete na boca e arde

como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve

nos braços um segundo – um nome sim.

 

Maria do Rosário Pedreira

Parcela
Fevereiro 11, 2009

O destino valia-se dos meus lábios

e  eu vendi os meus lábios a mim próprio.

………..

No lugar dos meus lábios ficou

um poço negro

onde o destino bate e se rebola

e  onde se debruçariam os turistas de almas

se soubessem dele.

…………

É  escusado somar estas parcelas.

Eu sei que a conta está errada,

que falta, entre as parcelas, uma parcela de angústia.

…………

E  não sei se está em mim, se está nas outras.

amargo

 Jorge de Sena