Ascensão
Abril 14, 2019

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
– até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

espiral

João Rui de Sousa

Príncipe
Dezembro 9, 2016

Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e uma
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

 

mulher-pensativa

Ana Hatherly      em    “Um Calculador de Improbabilidades”

 

Para os lábios que o homem faz
Julho 10, 2016

Para os lábios
que o homem faz
que atraem beijos
ao redor do mundo
ficou na nossa memória
em qualquer parte a qualquer hora
um pedaço
de pão

Promessa
que se cumpre
que alimenta
o mundo

Olhos
a exigir
uma floresta

boca

Mário Cesariny, em “Pena Capital”

Sonho
Fevereiro 9, 2014

Um cair de cabelos nos teus ombros,

um suspiro preso à lembrança que

ficou, um brilho que se demora nos

olhos à janela, um eco que não passa

.

na memória de um murmúrio, o

abraço em que o tempo se suspende,

a voz que dança por entre ruídos e

silêncio, as mãos que não se libertam

.

num gesto de despedida, lábios que

outros lábios procuram, uma luz

que alastra na sombra que desce,

.

e uma sombra que se ilumina quando

a noite já cresce: tu, sonho que

faz real a realidade em que te sonho.

ahcravo-dscn2727-por-sol-bico

Nuno  Júdice

Não perguntes
Outubro 30, 2013

De onde vem? De que fonte

ou boca

ou pedra aberta?

É para ti que canta

ou simplesmente

para ninguém?

Que juventude

te morde ainda os lábios?

Que rumor de abelhas

te sobe à garganta?

Não perguntes, escuta:

é para ti que canta.

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Eugénio de Andrade

Confidência
Outubro 21, 2012

observado

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto

A uma mulher
Maio 18, 2011

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
estavas trémula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
e a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
e que era preciso fugir para não perder o único instante
em que foste realmente a ausência de sofrimento
em que realmente foste a serenidade.

 

Vinicius  de  Moraes

À boca do cântaro
Abril 3, 2011

Caminha sílaba a sílaba

como a fonte

que só pára à boca do cântaro.

Aí consente partilhar a água.

À audácia dos jovens, à timidez

dos que já o não são, mata a sede.

Aos que tropeçam na falta

de amor, aos que mordem as lágrimas

em segredo, dá a beber.

Leva aos lábios febris

a frescura da pedra. Não deixes

o medo multiplicar as garras.

Sílaba a sílaba

caminha até ao cântaro

vazio. – Tão cheio agora!

 

Eugénio  de  Andrade

Memória 2
Fevereiro 24, 2011

Carregas a minha boca na tua,

esta memória que arde em ti,

e ainda assim te vais,

teu corpo e tua alma estão marcados pelo amor.

Hão-de falar-te de mim os teus lábios,

a tua pele onde andaram os meus,

as nossas vozes misturadas de palavras e sussurros.

Estarão cada dia a lembrar-te.

Silvia   Chueire