Germinação
Janeiro 7, 2020

Entre duas ruas paralelas
nossas conexões transversais aproximaram
o contato de nossos lábios e de nossas mãos
que se transformam em uma arte de expressão geométrica
com traços de cubismo:
vários vértices com sensações de infinitude
vários ângulos com encaixe de elevada estruturação

aprofundamos em anestesia
enquanto verticalizávamos nossos sentidos
investindo em uma profundidade de sentimentos superior
aos abismos de corações e mentes distraídas

nossa troca de olhares ficou surrealista:
teu cheiro penetrando em minhas vísceras
depositando em meu tecido adiposo
desregulando minha frequência cardíaca
com a profunda vibração de tuas cordas vocais
abraçando meu miocárdio

nossos corpos em contato se tornaram um único abrigo
nossa confluência de ideias formaram fortalezas de harmonia
nossa taxa metabólica igualou nossas funções vitais
e fomos capazes de rejuvenescer
simultaneamente
lado a lado

enquanto me abraçava revitalizando
cada célula corporal,
aprofundamos
ultrapassando os limites para mergulhos recreacionais

molhamo-nos ao toque do mar
secamo-nos à luz do sol
pulsantes:
amadurecemos em frutos

olhosnosolhos

Larissa Vahia

Ascensão
Abril 14, 2019

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
– até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

espiral

João Rui de Sousa

Príncipe
Dezembro 9, 2016

Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e uma
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

 

mulher-pensativa

Ana Hatherly      em    “Um Calculador de Improbabilidades”

 

Para os lábios que o homem faz
Julho 10, 2016

Para os lábios
que o homem faz
que atraem beijos
ao redor do mundo
ficou na nossa memória
em qualquer parte a qualquer hora
um pedaço
de pão

Promessa
que se cumpre
que alimenta
o mundo

Olhos
a exigir
uma floresta

boca

Mário Cesariny, em “Pena Capital”

Sonho
Fevereiro 9, 2014

Um cair de cabelos nos teus ombros,

um suspiro preso à lembrança que

ficou, um brilho que se demora nos

olhos à janela, um eco que não passa

.

na memória de um murmúrio, o

abraço em que o tempo se suspende,

a voz que dança por entre ruídos e

silêncio, as mãos que não se libertam

.

num gesto de despedida, lábios que

outros lábios procuram, uma luz

que alastra na sombra que desce,

.

e uma sombra que se ilumina quando

a noite já cresce: tu, sonho que

faz real a realidade em que te sonho.

ahcravo-dscn2727-por-sol-bico

Nuno  Júdice

Não perguntes
Outubro 30, 2013

De onde vem? De que fonte

ou boca

ou pedra aberta?

É para ti que canta

ou simplesmente

para ninguém?

Que juventude

te morde ainda os lábios?

Que rumor de abelhas

te sobe à garganta?

Não perguntes, escuta:

é para ti que canta.

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Eugénio de Andrade

Confidência
Outubro 21, 2012

observado

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto

A uma mulher
Maio 18, 2011

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
estavas trémula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
e a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
e que era preciso fugir para não perder o único instante
em que foste realmente a ausência de sofrimento
em que realmente foste a serenidade.

 

Vinicius  de  Moraes

À boca do cântaro
Abril 3, 2011

Caminha sílaba a sílaba

como a fonte

que só pára à boca do cântaro.

Aí consente partilhar a água.

À audácia dos jovens, à timidez

dos que já o não são, mata a sede.

Aos que tropeçam na falta

de amor, aos que mordem as lágrimas

em segredo, dá a beber.

Leva aos lábios febris

a frescura da pedra. Não deixes

o medo multiplicar as garras.

Sílaba a sílaba

caminha até ao cântaro

vazio. – Tão cheio agora!

 

Eugénio  de  Andrade

Memória 2
Fevereiro 24, 2011

Carregas a minha boca na tua,

esta memória que arde em ti,

e ainda assim te vais,

teu corpo e tua alma estão marcados pelo amor.

Hão-de falar-te de mim os teus lábios,

a tua pele onde andaram os meus,

as nossas vozes misturadas de palavras e sussurros.

Estarão cada dia a lembrar-te.

Silvia   Chueire