A Memória
Setembro 16, 2020

Por entre vendavais desfeitos,

procuro no antro da memória,

procuro por sítios inóspitos,

porque nos perdemos no fundir do tempo!

.

Arrastam-se máscaras, esfinges,

que não consigo decifrar,

mas tu és a mesma menina que sempre foste,

o passar dos anos fez-te ainda mais bonita,

fez-te sedutora.

.

Queria perder-me nos teus braços,

acordar e renascer das cinzas,

todo eu ainda tremo ao ouvir os teus passos!

.

Por entre muralhas e sombras que nos enlaçam no nevoeiro,

duas faces, olhos nos olhos,

os meus aproximam-se dos teus,

os meus lábios secam as tuas lágrimas,

beijo-te os olhos,

acabam as tuas mágoas prisioneiras do passado!

meu príncipe

Daniel  Dias

Talvez
Novembro 3, 2009

coracao20

Ah! Se eu pudesse um dia adivinhar

aquilo que eu não penso e que Ela pensa,

talvez eu conseguisse a recompensa

das horas que hei passado a soluçar!

Talvez aquele pranto de criança,

que eu verti sobre as cinzas do meu lar,

conseguisse alcançar o que Ela alcança

quando, junto de mim, fica a chorar!

Talvez pudesse um dia transformar

aqueles sonhos lindos que eu sonhei

noutro desvairo, noutra febre intensa!

Ah! Se eu pudesse um dia adivinhar

aquilo que Ela sabe e eu não sei,

aquilo que eu não penso e que Ela pensa!…

 

Abílio Mesquita

Vai-te, Poesia
Janeiro 3, 2009

Deixa-me ver a vida

exacta e intolerável

neste planeta feito de carne humana a chorar

onde um anjo me arrasta todas as noites

para casa pelos cabelos

com bandeiras de lume nos olhos,

para fabricar sonhos

carregados de dinamite de lágrimas.

.

Vai-te, Poesia .

Não quero cantar.

Quero gritar!

.

José Gomes Ferreira

Adeus
Julho 14, 2008

É  um adeus…

Não vale a pena sofismar a hora !

É  tarde nos meus olhos e nos teus…

Agora,

o remédio é partir discretamente,

sem palavras,

sem lágrimas,

sem gestos.

De que servem lamentos e protestos

contra o destino ?

Cego assassino

a que nenhum poder

limita a crueldade,

só o pode vencer a humanidade

da nossa lucidez desencantada.

Antes da iniquidade

consumada,

um poema de líquido pudor,

um sorriso de amor,

e  mais nada.

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Miguel Torga