Da Morte.Odes Mínimas
Agosto 26, 2015

V

Túrgida-mínima
como virás, morte minha?

Intricada. Nos nós.
Num passadiço de linhas.
Como virás

nos caracóis, na semente
em sépia, em rosa mordente
como te emoldurar?

Afilada
ferindo como as estacas
ou dulcíssima lambendo

como me tomarás?

Hilda Hilst

Entre querer e poder
Novembro 21, 2011

 Entre querer e poder

há apenas uma imensidão de lagos transparentes
de silêncios e verdades
de hesitações
Entre querer e poder há um tempo
que se fechou em armários
entre fotografias e verdades
Entre querer e poder há uma lei
inexorável
a lei do tempo
de papéis velhos sem cores nem rei
dos restos do momento
Entre querer e poder
há uma imensidão de lagos transparentes
e um lamento

Raul Cordeiro

Mulher
Março 8, 2011

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
a tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma imagem
adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
sem nunca o confessarem a ninguém
doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
dum rei; amor de sonho e de saudade,
que se esvai e que foge num lamento!

Florbela Espanca – “Trocando olhares”