A um jovem poeta
Maio 13, 2020

 

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

rosa aberta

Manuel António Pina     em     Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança

Alegres campos, verdes arvoredos
Abril 22, 2019

Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos
compostos de concerto desigual;
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E pois já me não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regar-vos-ei com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.

6409flores

Luiz de Camões

Cantiga para não morrer
Dezembro 21, 2016

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

fugaz

Ferreira Gullar   in   “Dentro da Noite Veloz

Talvez de noite
Novembro 27, 2016

À minha volta tudo envelheceu

como se fosse eu, e no entanto

uma casa, ou um espaço em branco

entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada

surge com a sua própria forma.

Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais,

a lembranças extenuadas,

às trevas do corpo, lúcidas,

latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo ‘palavras’ porque

não sei que coisa chamar

à mudez do mundo.

E digo  ‘sentido’ sufocado

sob o pensamento

tentando respirar

a golpes de coração,

agora que se desmorona a casa

sobre todas as palavras possíveis.

jardim-de-um-mosteiro_thumb

Manuel António Pina

Afirmação triste
Fevereiro 21, 2012

Já fiz as pazes contigo ;

e se algum ressentimento

entre nós, pode surgir,

a culpa –

não será do que fizermos

de hoje em diante

– apenas, possivelmente,

do que os nossos corações

teimarem

muito em silêncio sentir.

.

Contudo,

não podemos protestar:

o sofrimento passa, meu amor ;

mas a lembrança de ter sofrido

quem é que a pode arrancar?

António  Botto

Apelo à Poesia
Maio 8, 2011

Porque vieste? – Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(nem triste, nem alegre, de maneira
que pudesse sentir a tua falta…)
E tu vieste,
como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
pé ante pé, cobardemente oculta
nas ideias mais simples,
nos mais ingénuos sentimentos:
um sorriso, um olhar, uma lembrança…
– Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
presa ao meu coração
por um elo invisível;


Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
de zonas espectrais, de ignotos climas;
e, quando desço à vida, já não sei
onde era o meu lugar…
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
que só as tuas mãos saibam curar-me,
ou ninguém, se não tu, possa entender
o meu contentamento…
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!

Carlos Queirós (1907-1949)

Saudade
Maio 12, 2010

Magoa-me a saudade

no sobressalto dos corpos

ferindo-se de ternura

dói-me a distante lembrança

do teu vestido

caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade

do tempo em que te habitava

como o sal ocupa o mar

como a luz recolhendo-se

nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,

tua noite sem remédio

tua virtude, tua carência

eu

que longe de ti sou fraco

eu

que já fui água, seiva vegetal

sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz

de novo, meu amor,

a transparência da água

dá ocupação à minha ternura vadia

mergulha os teus dedos

no feitiço do meu peito

e espanta na gruta funda de mim

os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

Soneto para M
Março 8, 2010

Mais que um simples flerte
Angustia que brota do celular inerte
Relembrando palavras
Galanteios e gracejos trocados
Amainando lembranças
Remoçando sentidos e sentimentos
Esquecidos
Tragados pelo cotidiano
Homem e mulher conectados pela esperança.

Mensagens virtuais, fugazes
Aquecem corações partidos
Refeitos na eminência da paixão
Tramada no puro desejo
Intentando a felicidade
Natural caminho para a
Saudade.

Saudade que aflora e enternece a esperança.

Wagner Ricardo dos Santos

A mim, na minha mão…
Janeiro 19, 2009

A mim, na minha mão, como o pássaro pousa

inocente e sem medo, amor pousou de leve

sendo que vinha saltitando em espasmos lentos

de  que se acrescentava a cada passo em carne.

Mas veio e se pousou malicioso e tenso,

tão desbragado e audaz no se entregar a mim

que a minha mão estendida ansiosa estremecia

de ver como sorria aquele amor em voo.

Pousou assim de leve  em minha mão aberta,

um pássaro tranquilo a mim se dando inteiro.

Um instante apenas foi. Silente não falou,

e  logo se acabou deixando só as lembranças.

Que triste este viver de só falar mais tarde !

balance-thumb

 Jorge de Sena

Migalhas
Abril 3, 2008

Vivemos de migalhas,

do pouco que a vida

nos deixa dar

um ao outro…

De lembranças, de sonhos,

de encontros virtuais,

de silêncios…

Esta amargura de estarmos longe

um do outro,

mesmo quando podíamos

estar perto…

Este carinho que certas palavras mágicas

abrem  no rol

das recordações…

Este pressentir de razões,

na sequência implacável do Destino…

Esta recusa, este medo,

este sofrimento…

Onde estás?

Pensas em mim?

isso-se-chama-amor-1

Diana  Sá