Poema de Natal
Dezembro 21, 2012

Para isso fomos feitos:
para lembrar e ser lembrados
para chorar e fazer chorar
para enterrar os nossos mortos —
por isso temos braços longos para os adeuses
mãos para colher o que foi dado
dedos para cavar a terra.


Assim será nossa vida:
uma tarde sempre a esquecer
uma estrela a se apagar na treva
um caminho entre dois túmulos —
por isso precisamos velar
falar baixo, pisar leve, ver

a noite dormir em silêncio.


Não há muito o que dizer:
uma canção sobre um berço
um verso, talvez de amor
uma prece por quem se vai —
mas que essa hora não esqueça
e por ela os nossos corações
se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:
para a esperança no milagre
para a participação da poesia
para ver a face da morte —
de repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes

Soneto da 4ª feira de Cinzas
Março 9, 2011

Por seres quem me foste, grave e pura

em tão doce surpresa conquistada,

por seres uma branca criatura

de uma brancura de manhã raiada ;

 

por seres de uma rara formosura

malgrado a vida dura e atormentada,

por seres mais que a simples aventura

e menos que a constante namorada ;

 

porque te vi nascer, de mim sozinha

como a noturna flor desabrochada

a uma fala de amor, talvez perjura ;

 

por não te possuir, tendo-te minha,

por só quereres tudo, e eu dar-te nada,

hei-de lembrar-te sempre com ternura.

 

Vinicius  de  Moraes