Terra livre e insubmissa
Maio 22, 2015

E no entanto é doce dizer pátria

sonhar a terra livre e insubmissa

inteiramente nossa

Sonhá-la como se pedra a pedra a pedra a construíssemos

Como se nada houvesse antes de nós

e desde as fundações a erguêssemos completa

pura alegre acolhedora virgem

de medos mortos insepultos

agreste

Daniel  Filipe

Quem a tem…
Novembro 5, 2014

Não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

.

Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pertença

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui,

não hei-de morrer sem saber.

.

Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,

não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

MINOLTA DIGITAL CAMERA

Jorge de Sena

Com palavras
Abril 4, 2014

Com palavras me ergo em cada dia! 
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto 
e saio para a rua. 
Com palavras – inaudíveis – grito 
para rasgar os risos que nos cercam. 
Ah!, de palavras estamos todos cheios. 
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor 
em quatro ou cinco línguas. 
Tomamo-las à noite em comprimidos 
para dormir o cansaço. 
As palavras embrulham-se na língua. 
As mais puras transformam-se, violáceas, 
roxas de silêncio. De que servem 
asfixiadas em saliva, prisioneiras? 
Possuímos, das palavras, as mais belas; 
as que seivam o amor, a liberdade… 
Engulo-as perguntando-me se um dia 
as poderei navegar; se alguma vez 
dilatarei o pulmão que as encerra. 
Atravessa-nos um rio de palavras: 
Com elas eu me deito, me levanto, 
e faltam-me palavras para contar…

silence

Egito  Gonçalves

Recomeça
Maio 5, 2012

Recomeça… se puderes,

sem angústia e sem pressa

e os passos que deres,

nesse caminho duro

 do futuro,

dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances,

não descanses,

de nenhum fruto

queiras só metade.

E, nunca saciado,

vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

o logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

onde, com lucidez, te reconheças…

.

Miguel Torga

Amor combate
Abril 25, 2012

Meu amor que eu não sei.

Amor que eu canto. Amor que eu digo.

Teus braços são a flor do aloendro.

Meu amor por quem parto.

Por quem fico. Por quem vivo.

Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor – país.

Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue.

É seiva. É sol. É Primavera.

Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.

O nosso amor é uma arma. É uma espera.

O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.

Rasgando o céu azul-coragem de  Lisboa.

Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.

O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas

para escrever com sangue o nome que inventei.

Romper. Ganhar a voz duma assentada.

Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor.

Amor de tudo ou nada.

Amor-verdade. Amor-cidade.

Amor-combate. Amor-abril.

Este amor de  liberdade.

Joaquim  Pessoa