Real
Dezembro 9, 2019

Real, real, porque me abandonaste?

E, no entanto, às vezes bem preciso

de entregar nas tuas mãos o meu espírito

e que, por um momento, baste

.

que seja feita a tua vontade

para tudo de novo ter sentido,

não digo a vida, mas ao menos o vivido,

nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros

e desimaginar o mundo, descriá-lo,

amarrando-me ao mastro mais altivo

do passado. Mas onde encontrar um passado?

natureza_rio

Manuel António Pina


Abril 28, 2018

Nas estantes os livros ficam

(até se dispersarem ou desfazerem)

enquanto tudo

passa. O pó acumula-se

e depois de limpo

torna a acumular-se

no cimo das lombadas.

Quando a cidade está suja

(obras, carros, poeiras)

o pó é mais negro e por vezes

espesso. Os livros ficam,

valem mais que tudo,

mas apesar do amor

(amor das coisas mudas

que sussurram)

e do cuidado doméstico

fica sempre, em baixo,

do lado oposto à lombada,

uma pequena marca negra

do pó nas páginas.

A marca faz parte dos livros.

Estão marcados. Nós também.

pó 2

Pedro Mexia

As Prendas de Natal
Dezembro 25, 2017

Vêm dos tios, dos avós,

em embrulhos coloridos:

são livros e são brinquedos

já há muito prometidos.

.

E nunca mais chega a hora

de serem desembrulhados;

enquanto o momento tarda

há meninos acordados.

.

Ao Natal do presépio

deram os reis os presentes.

Magos, vindos de tão longe,

com túnicas reluzentes.

.

O menino, mal os viu,

logo se pôs a pensar:

“Talvez o melhor presente

seja o amor que vou dar.”

.

Chega embrulhado no sono

o presente mais gostoso:

é o colinho dos pais

abrindo a porta ao repouso.

.

E paira no ar a pergunta

que faz o maior sentido:

para se ter um presente,

há que tê-lo merecido?

.

Seja Jesus ou Pai Natal,

nisto hão de concordar:

o que conta nesta vida

é sabermos partilhar.


José Jorge Letria
    em    O livro do Natal

Tanto que fazer
Novembro 9, 2017

Tanto que fazer !
Livros que não se lêem,
cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuvas,
e os mortos em redôma de cânfora.
( E uma canção tão bela ! )

Tanto que fazer !
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.

 

Foto de Graça Costa.

Carta ao Filho
Julho 19, 2015

Não vivas sobre a terra como um estranho,
um turista no meio da natureza.
Habita o mundo como a casa do teu pai.
Crê na semente, na terra, no mar.
mas acima de tudo crê nas pessoas.
Ama as nuvens,
as máquinas,
os livros,
mas acima de tudo ama o homem.
Sente a tristeza do ramo que murcha,
do astro que se extingue,
do animal ferido que agoniza,
mas acima de tudo
sente a tristeza e a dor das pessoas.
Alegra-te com todos os bens da terra,
com a sombra e a luz,
com as quatro estações,
mas acima de tudo e a mãos cheias
alegra-te com as pessoas.

Nazim Hikmet

A @[100000063776644:2048:Cristina Carmona-Franz] pediu-me que postasse um poema e indicasse 4 amigos. A minha escolha é a seguinte:  Porque creio que são estes os valores a passar aos nossos filhos. Boa noite, com Nazim Hikmet heart emoticon  CARTA AO FILHO  Não vivas sobre a terra como um estranho Um turista no meio da natureza. Habita o mundo como a casa do teu pai. Crê na semente, na terra, no mar. mas acima de tudo crê nas pessoas. Ama as nuvens, as máquinas, os livros, mas acima de tudo ama o homem. Sente a tristeza do ramo que murcha, do astro que se extingue, do animal ferido que agoniza, mas acima de tudo Sente a tristeza e a dor das pessoas. Alegra-te com todos os bens da terra, Com a sombra e a luz, com as quatro estações, mas acima de tudo e a mãos cheias alegra-te com as pessoas.  Nazim Hikmet  E o nome dos amigos que indico são: @[100006520182784:2048:Julia Teixeira] , Teresa Pereira , Conceição Militão e @[1370736139:2048:Conceição Cabeças]

A hora da alma
Setembro 7, 2014

Esta é a tua hora, ó alma, a do teu livre voo para lá das palavras,

dos livros, da arte, apagado o dia, concluída a lição,

quando tu emerges plenamente, silenciosa, absorta,

meditando sobre os temas que mais amas,

a noite, o sono, a morte e as estrelas.

Blue ridge mountain moon

WALT WHITMAN

Folhas de Erva

(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)

Escrito num livro abandonado em viagem
Dezembro 18, 2013

Venho dos lados de Beja.

Vou para o meio de Lisboa.

Não trago nada e não acharei nada.

Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,

e a saudade que sinto não é do passado nem do futuro.

Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:

fui, como ervas, e não me arrancaram.

Floresta virgem

Álvaro de Campos

Amigos e amantes
Setembro 24, 2013

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos
desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam

 trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.mar_2

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA,  em A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS (Quetzal, 1996), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

Percepção subjectiva
Maio 22, 2012

Não sei que nome chamar-te.
Nem onde estão os passos
… que quero sombra dos meus.

Talvez eu seja um livro cansado
de tanto me leres,
ou tão-pouco saibas
onde ficou o marcador de página
O eterno é tão efémero
que nem damos pelo presente…
há aromas que não ficam na pele.

Sonho que queres vir sem convite
onde sou frente e verso,
onde desenho na página par
um balão a insuflar
ao sabor da aragem
ou a primeira pétala
que cai na mudança de estação.

Não sei que nome chamar-te
quando te vejo entre os nenúfares
numa paisagem serena,
prostrada abraçando a árvore
que lança os ramos sobre as águas,
onde as nossas roupas
se transformam em leito de amor
e dançamos ao brilho das estrelas apaixonadas.

Não sei que nome chamar-te
quando levas o cálice aos lábios de cor carmim
e olhas o livro despojado de letras.

Francisco Valverde Arsénio

A um livro
Abril 23, 2011

No silêncio de cinzas do meu Ser
agita-se uma sombra de cipreste,
sombra roubada ao livro que ando a ler,
a esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
as orações que choro e rio e canto!…

Poeta igual a mim, ai que me dera
dizer o que tu dizes! … Quem soubera
velar a minha Dor desse teu manto!…

Florbela Espanca, Livro de Mágoas