Soneto de Fidelidade
Julho 17, 2011

De tudo ao meu amor serei atento
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive,
quem sabe a solidão, fim de quem ama,

eu possa me dizer do amor (que tive):
que não seja imortal, posto que é chama,

mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Morais

Em teu louvor
Setembro 12, 2010

Hoje é que percebi : sigo esquecido e alheio,

e há muito tempo já que não falo de nós.

Não precisas no entanto de ter nenhum receio,

se versos não te dou, é que hoje, em meu enleio,

tudo esqueço por ti… quando estamos a sós…

Ontem, era o começo, era o sonho, ansiedade!

A vida uma esperança a repartir por dois…

Hoje… hoje é tão boa a nossa intimidade

que é bastante viver, e a própria realidade

não nos deixa pensar no que virá depois…

  …

Ontem, fiz do meu verso uma arma de conquista,

e teci confidências preludiando o amor…

Hoje, (perdoa se o homem sobrepuja o artista!),

quando em tua nudez, surge bela e imprevista,

minha alma em minhas mãos tem ânsias de escultor.

Vivamos!.. E prometo então para mais tarde

mil versos,(sabes bem que um dia hei-de fazê-los…).

Agora, basta que te deseje e te ame sem alarde

a mergulhar na sombra o rosto em teus cabelos.

Mais tarde, sim, mais tarde, hás-de tê-los, querida,

ressonâncias de amor, versos puros e francos,

cantos de ave ao sol poente, última ária da vida,

quando a noite cerrar meus olhos, comovida,

e o luar tingir de prata os teus cabelos brancos!…

Agora, não… Agora a vida é bela, é louca,

nos sentidos em festa e em sons primaveris;

é o beijo que procuro e mordo em tua boca!

…é a sombra que se vai… é a noite curta e pouca…

(são tão curtas as noites quando se é feliz!)

Sou assim, quando vivo não escrevo, vivo!

E não brotam meus versos de desejos vãos…

Se tenho em minhas mãos o teu corpo cativo,

é inútil insistir, meu pensamento é esquivo.

Só tu existes, tu! e a ânsia das minhas mãos…

Ontem, dava~te versos, versos que relias

com um estranho langor nos olhos extasiados…

Hoje, encho de beijos tuas mãos vazias,

e esquecidos do tempo, vão rolando os dias

…e as noites vão rolando em teus olhos cerrados!

Hoje é que percebi num segundo de sonho :

já não faço mais versos sobre o nosso amor…

Mas, que importa? Se vejo o teu olhar risonho…

os versos que em silêncio em teu corpo componho

são os mais belos talvez que faço em teu louvor!

J. G. Araújo Jorge