Talvez de noite
Novembro 27, 2016

À minha volta tudo envelheceu

como se fosse eu, e no entanto

uma casa, ou um espaço em branco

entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada

surge com a sua própria forma.

Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais,

a lembranças extenuadas,

às trevas do corpo, lúcidas,

latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo ‘palavras’ porque

não sei que coisa chamar

à mudez do mundo.

E digo  ‘sentido’ sufocado

sob o pensamento

tentando respirar

a golpes de coração,

agora que se desmorona a casa

sobre todas as palavras possíveis.

jardim-de-um-mosteiro_thumb

Manuel António Pina

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O mais é nada
Março 16, 2016

Navega, descobre tesouros, mas não os tires do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admira a lua, sonha com ela, mas não queiras trazê-la para a terra.
Goza o sol, deixa-te acariciar por ele, mas lembra-te que o calor dele é para todos.
Sonha com as estrelas, sonha apenas, elas só podem brilhar no céu.
Não tentes deter o vento, ele precisa de correr por toda a  parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não segures a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode molhar só o teu.
As lágrimas? Não as seques, elas precisam correr na minha, na tua, em todas as faces.
O sorriso! Esse tu deves segurar, não deixes-o ir embora, agarra-o!
Quem tu amas? Guarda dentro de um guarda- jóias, tranca, perde a chave!
Quem tu amas é a maior jóia que tu possuis, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a idade aumenta;

conserva a vontade de viver, não se chega a nenhuma parte sem ela.
Abre todas as janelas que encontrares e as portas também.
Persegue um sonho, mas não o deixes viver sozinho.
Alimenta a tua alma com amor, cura as tuas feridas com carinho.
Descobre-te todos os dias, deixa-te levar pelas vontades, mas não enlouqueças por elas.

Procura, procura sempre o fim de uma história, seja ela qual for.
Dá um sorriso a quem esqueceu como se faz isso.
Acelera os teus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.
Olha para o lado, alguém precisa de ti.
Abastece o teu coração de fé, não a percas nunca.
Mergulha de cabeça nos teus desejos e satisfá-los.
Agoniza de dor por um amigo, só sai dessa agonia se conseguires tirá-lo também.
Procura os teus caminhos, mas não magoes ninguém nessa procura.
Arrepende-te, volta atrás, pede perdão!
Não te acostumes com o que não te faz feliz, revolta-te quando julgares necessário.
Alaga o teu coração de esperanças, mas não deixes que ele se afogue nelas.
Se achares que precisas voltar, volta!
Se perceberes que precisas de seguir, segue!
Se estiver tudo errado, começa novamente.
Se estiver tudo certo, continua.
Se sentires saudades, mata-as.
Se perderes um amor, não te percas!
Se o  achares, segura-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada.”

rosas brancas

Fernando Pessoa

Eu queria
Janeiro 5, 2015

Eu queria mais altas as estrelas,
mais largo o espaço, o Sol mais criador,
mais refulgente a Lua, o mar maior,
mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas.
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
– Quanto mais funda e lúgubre a descida,
mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa… em paz, contente,
um dia adormecer, serenamente,
como dorme no berço uma criança!

natureza31

Florbela Espanca

Fronteira
Agosto 13, 2013

De um lado terra, doutro lado terra;

de um lado gente, doutro lado gente;

lados e filhos desta mesma serra,

o mesmo céu os olha e os consente.

.

O mesmo beijo aqui, o mesmo beijo além;

uivos iguais de cão ou de alcateia.

E a mesma lua lírica que vem

corar meadas de uma velha teia.

.

Mas uma força que não tem razão,

que não tem olhos, que não tem sentido,

passa e reparte o coração

do mais pequeno tojo adormecido.

paisagem

Miguel  Torga

Pátria
Maio 15, 2013

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro

.

Pelos rostos de silêncio e de paciência

que a miséria longamente desenhou

rente aos ossos com toda a exactidão

do longo relatório irrecusável

.

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

.

E pela limpidez das tão amadas

palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo das palavras

donde se erguem as coisas nomeadas

Pela nudez das palavras deslumbradas

.

– Pedra rio vento casa

pranto dia canto alento

espaço raiz e água

Ó minha pátria e meu centro

.

me dói a lua me soluça o mar

e o exílio se inscreve em pleno tempo

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Sophia de Mello Breyner Andresen

A mulher feliz
Março 28, 2012

Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na
e os ventos empurraram-na, está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
Só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.

É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!

Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais intima distância.

ANTÓNIO RAMOS ROSA, em VOLANTE VERDE

Astros
Janeiro 27, 2012

Aprendiz de avessos,

colhi lição de quem nada ensina

senão o talento de ser sem querer.

.

A chuva me ensinou telhados

e anoiteci nas letras de um livro.

.

A pedra me explicou a morte

no passo antecipado sobre a lápide.

.

Num mundo em que amar

se faz de fúrias pequenas e ódios perenes

em ti derramei meu corpo

para habitar a sombra da água.

.

Não importa quem dentro de mim  respira :

o amor é a noite

iluminando o relâmpago.

E eu não saberei nunca viver

de tanto te sonhar.

.

Como um Sol

que apenas existe

na sua própria ardência,

eu sou só amando.

.

A minha luz é um luar

à procura de uma outra Lua.

Mia Couto

 

Não tens perdão
Janeiro 12, 2012

Não me disseste amante, madrugada,
pedra-de-lua, pássaro, viagem.
No meu corpo de Agosto feito à estrada,
não descobriste a sombra da folhagem.
Não murmuraste ao menos solidão.
Amora, mel, morango, não disseste.
Não te pedi nem mar nem coração.
Não tens perdão.
Fui água e não bebeste.

 Rosa Lobato de Faria

Dá-me a tua mão
Julho 14, 2011

Dá-me a tua mão. 

Deixa que a minha solidão 
prolongue mais a tua 
— para aqui os dois de mãos dadas 
nas noites estreladas, 
a ver os fantasmas a dançar na lua. 

Dá-me a tua mão, companheira, 
até o Abismo da Ternura Derradeira. 

José Gomes Ferreira, in “Poeta Militante I” 

Viver sempre também cansa
Junho 19, 2011

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
…ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam.
Não cai neve vermelha.
Não há flores que voem.

A lua não tem olhos.
Ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho
de vez em quando
e recomeçar depois
achando tudo mais novo?

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses.
Morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia.
Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

José  Gomes  Ferreira