A verdadeira liberdade
Novembro 15, 2016

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
a liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
a grande liberdade cristã da minha infância que rezava
estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
a noção jurídica da alma dos outros como humana,
a alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
e beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da mão do amigo [sério?]…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
da casa do campo da minha velha infância…
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?”

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Álvaro de Campos   em   “Poemas (Inéditos)

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Entre o luar e a folhagem
Junho 28, 2016

Entre o luar e a folhagem,
entre o sossego e o arvoredo,
entre o ser noite e haver aragem
passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
princípio ou fim do que não foi,
não tem lugar, não tem verdade,
atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si!
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

sonho

Fernando Pessoa
19-8-1933

Deixem passar
Março 10, 2016

 

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
beber água de Sonho a qualquer fonte;
ou colher açucenas
a um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
e onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
uma estrela no chão.

(1932) Miguel Torga

Foto de Páginas Em Poesia.

Passagem do outro lado
Outubro 1, 2015

Somos confusos como as florestas.
.
Tu, e eu (e todos nós),
temos enredos na voz,
armaduras e espessuras
que nos encobrem de nós.
.
Anda.
Percorre-me sem desvios,
inteira, plena, despida,
infância desprevenida
sem roupas e sem atavios.
.
Anda.
Rasga esta verde espessura
com os teus gestos afiados.
Insinua-te, procura,
derrama a tua brancura
nos trilhos enviesados.
Progride e canta. Penetra
neste matagal bravio,
desembrulhada e erecta
como a vela dum navio.
Singra, desliza suave
como gota que escorresses,
como luar que batesses,
penugem que esvoaçasses.
.
Entra e serve-te. Verás,
ou caídos ou suspensos,
frutos de aromas intensos

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que em silêncio morderás.
Teus dentes lhe darão sumo,
teus lábios lhe darão gosto
e o veludo que presumo
macio como o teu rosto.
.
Tuas mãos os farão belos
e alegres como facetas,
verdes, azuis, amarelos,
vermelhos e violetas.
.
De um arrepio, na espessura,
toda a floresta estremece.
Eu dou-te a minha loucura.
Dá-me o canto que a adormece.

António Gedeão

Por todos os caminhos do mundo
Julho 26, 2015

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,
por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,
ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do oásis,
ora os pés cansados, sem forças para além.
Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.
Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.
Não sei caminhos de cor.

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Fernando Namora

Beleza
Março 19, 2014

Porto

Entrei no café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

?
Abril 9, 2012

Quem fez ao sapo o leito carmesim

de rosas desfolhadas à noitinha?

E quem vestiu de monja a andorinha,

e perfumou as sombras do jardim?

.

Quem cinzelou estrelas no jasmim?

Quem deu esses cabelos de rainha

ao girassol? Quem fez o mar? E a minha

alma a sangrar? Quem me criou a mim?

.

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?

Santa Teresa em místicos arroubos?

Os monstros? E os profetas? E o luar?

.

Quem nos deu asas para andar de rastros?

Quem nos deu olhos para ver os astros

– sem nos dar braços para os alcançar?

Florbela  Espanca

Antes que seja tarde
Maio 4, 2011

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.


Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel  da  Fonseca

Paz?
Dezembro 26, 2010

Fumo
Novembro 15, 2010

Longe de ti são ermos os caminhos,

longe de ti não há luar nem rosas,

longe de ti há noites silenciosas,

há dias sem calor, beirais sem ninhos!

 

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos

perdidos pelas noites invernosas…

Abertos, sonham mãos cariciosas,

tuas mãos doces, plenas de carinhos!

 

Os dias são Outonos : choram…choram…

Há crisântemos roxos que descoram…

Há murmúrios dolentes de segredos…

 

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!

E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,

fumo leve que foge entre os meus dedos!…

Florbela  Espanca