A verdadeira liberdade
Novembro 15, 2016

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
a liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
a grande liberdade cristã da minha infância que rezava
estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
a noção jurídica da alma dos outros como humana,
a alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
e beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da mão do amigo [sério?]…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
da casa do campo da minha velha infância…
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?”

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Álvaro de Campos   em   “Poemas (Inéditos)

escrevo-te a sentir tudo isto
Janeiro 21, 2014

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar.

let it go

AL BERTO, em O MEDO (1987)

Recomeça
Maio 5, 2012

Recomeça… se puderes,

sem angústia e sem pressa

e os passos que deres,

nesse caminho duro

 do futuro,

dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances,

não descanses,

de nenhum fruto

queiras só metade.

E, nunca saciado,

vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

o logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

onde, com lucidez, te reconheças…

.

Miguel Torga