Na hora de pôr a mesa
Junho 1, 2020

O Piso e o Passo
Janeiro 10, 2017

Envelheço como o sapato:

quanto menos sirvo

menos aleijo o chão.

.

Antes,

eu buscava

conhecer um lugar.

.

Agora,

apenas quero

um lugar

que me conheça.

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Mia Couto

Ausência
Outubro 6, 2014

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.

mar bravo

Jorge Luis Borges, “Fervor de Buenos Aires” (1923) (tradução de Fernando Pinto do Amaral)

A poesia vai acabar
Novembro 13, 2013

A poesia vai acabar, os poetas

vão ser colocados em lugares mais úteis.

Por exemplo, observadores de pássaros

(enquanto os pássaros não

acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao entrar

numa repartição pública.

Um senhor míope atendia devagar

ao balcão; eu perguntei: “Que fez algum

poeta por este senhor?” E a pergunta

afligiu-me tanto por dentro e por

fora da cabeça que tive que voltar a ler

toda a poesia desde o princípio do mundo.

Uma pergunta numa cabeça.

– Como uma coroa de espinhos:

estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

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Manuel António Pina

Amigos e amantes
Setembro 24, 2013

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos
desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam

 trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.mar_2

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA,  em A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS (Quetzal, 1996), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

Epitáfio
Agosto 20, 2013

De mim não buscareis, que em vão vivi

de outro mais alto que em mim próprio havia.

Se em meus lugares, porém, me procurardes

o nada que encontrardes

eu sou e minha vida.

.

Essas palavras que em meu nome passam

nem minhas nem de altura são verdade.

Verdade foi que de alto as desejei

e que de mim só maldições cobriam.

Debaixo delas a traição se esconde,

porque demais me conheci distante

de alturas que de perto não existem.

.

Fui livre, como as águas, que não sobem.

Pensei ser livre, como as pedras caem.

O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,

que o dia-a-dia

em que me via

ele mesmo apenas era e nada mais.

.

Por isso fui amado em lágrimas e prantos

do muito amor que ao nada  se dedica.

jorge-de-sena

Nada que fui, de mim não fica nada.

E quanto não mereço é o que me fica.

Se em meus lugares, portanto, me buscardes

o nada que encontrardes

eu sou e a minha vida.

Jorge de Sena

Passagem
Julho 23, 2013

passage

 

Com que palavras ou que lábios

é possível estar assim tão perto do fogo,

e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,

tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,

e não só uma voz de ninguém.

Onde, porém? Em que lugares reais,

tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,

e estamos, se possível, ainda mais sós,

sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e como diremos rios?

À Inês

Manuel António Pina   em    Como se desenha uma casa (Assírio & Alvim)

Defeito de fabrico
Agosto 25, 2012

Quando nasci, trazia de origem

um farol que despejava luz a jorros

sobre o que quer que fosse,

mormente sobre as dobras

pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,

também os faróis estão sujeitos

às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje, não é

mais do que um triste farolim de bicicleta

que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido

a uma simples lanterna de bolso

com que mal poderei reconhecer

o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,

o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,

e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.

Mas a garantia caducou e o fabricante

nega-se a ressarcir-me do escuro.


A. M. Pires Cabral

Para além da curva da estrada
Dezembro 26, 2011

Para além da curva da estrada

talvez haja um poço, e talvez um castelo,

talvez seja apenas a continuação da estrada.

Não sei nem pergunto.

Enquanto vou na estrada antes da curva

só olho para a estrada antes da curva,

porque não posso ver senão a estrada antes da curva.

De nada me serviria estar olhando para outro lado

e para aquilo que não vejo.

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.

Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.

Se há alguém para além da curva da estrada,

esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.

Por ora só sabemos que lá não estamos.

Aqui só há a estrada antes da curva, e antes da curva

há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro

Quando eu me amei de verdade
Setembro 29, 2011


Quando eu me amei de verdade,

compreendi que em qualquer circunstância,

eu estava no lugar no lugar certo e na hora certa

e então pude ficar tranquilo.

Hoje sei que a isso se chama Auto-estima.

Quando eu me amei de verdade,

pude perceber que a minha angústia e sofrimento

não passam de um sinal de que estou a contrariar a minha verdade.

Hoje sei que a isso se chama Autenticidade.

Quando eu me amei de verdade,

parei de desejar que a vida fosse diferente,

e comecei a ver que tudo contribui para o crescimento.

Hoje sei que a isso se chama Amadurecimento.

Quando eu me amei de verdade,

percebi que é ofensivo forçar algo ou alguém a uma situação.

Hoje sei que a isso se chama Respeito.

Quando eu me amei de verdade,

comecei a livrar-me de tudo o que me diminuísse.

De início pensei que fosse egoísmo.

Hoje sei que a isso se chama Amor-próprio.

Quando eu me amei de verdade,

deixei de fazer grandes planos.

Hoje faço o que gosto, quando quero e no meu ritmo.

Hoje sei que a isso se chama Simplicidade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de querer ter sempre razão,

e com isso errei menos vezes.

Hoje sei que a isso se chama Humildade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de ficar só no passado e de me preocupar tanto com o futuro.

Agora mantenho-me mais no presente.

Hoje sei que a isso se chama Plenitude.

Charlie Chaplin