Vieste como um barco carregado de vento
Novembro 28, 2017

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

mar 4

Maria do Rosário Pedreira    em    ‘O Canto do Vento nos Ciprestes’

Quatro estações
Julho 2, 2014

Há uma impressão de cinza nas mãos

que aperto, com a força do vento, como

se não tivesse passado a sombra que as

anima, levando com ela o sonho em que a vi.

.

E sinto ainda um fulgor de lume nos

meus dedos, como se tivesse voltado

a quente ansiedade de outrora, e a sede

em que o desejo encontrava a sua fonte.

.

Um corpo que passou por mim, e me

esgotou a alma, perpassa na inspiração

em que a vida reencontra um rumo de campo:

.

com a melancolia do outono, a corrupção

do inverno, a maré florida da primavera,

e o êxtase dos frutos na colheita do verão.

maos1dt6

Nuno  Júdice

Noite
Julho 10, 2011

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória… amas
ou finges morrer pressinto o aroma luminoso dos fogos
… escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

 
Al  Berto