Quantas vezes, Amor, me tens ferido
Junho 12, 2017

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens curado?

Quão fácil de um estado a outro estado

o mortal sem querer é conduzido!

.

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,

como que até regia a mão do fado,

onde o sol, bem de todos, lhe é vedado,

depois, com ferros vis se vê cingido:

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para que o nosso orgulho as asas corte,

que variedade inclui esta medida,

este intervalo da existência à morte!

.

Travam-se gosto, e dor, sossego e lida;

é lei da natureza, é lei de sorte,

que seja o mal e o bem matiz da vida.

amar-o-prc3b3ximo

Bocage

Horas breves de meu contentamento
Novembro 9, 2016

Horas breves de meu contentamento,

nunca me pareceu, quando vos tinha,

que vos visse mudadas tão asinha

em tão compridos anos de tormento.

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As altas torres, que fundei no vento,

levou, enfim, o vento que as sustinha:

do mal, que me ficou, a culpa é minha,

pois sobre coisas vãs fiz fundamento.

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Amor com brandas mostras aparece,

tudo possível faz, tudo assegura;

mas logo no melhor desaparece.

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Estranho mal! Estranha desventura!

Por um pequeno bem, que desfalece,

um bem aventurar, que sempre dura!

castelo

Luiz de Camões

Já?
Novembro 30, 2014

já tentaste praticar o bem

fazendo mal?

já tentaste praticar o mal

fazendo bem?

já tentaste praticar o bem

fazendo bem?

já tentaste praticar o mal

fazendo mal?

já tentaste praticar o bem

não fazendo nada?

já tentaste praticar o mal

fazendo tudo?

já tentaste praticar tudo

não fazendo nada?

e o contrário, já tentaste?

já?

seja qual for a tua resposta,

não sei que te diga.

man_down_the_road_by_goldenso

Alberto Pimenta

Nevoeiro
Novembro 27, 2013

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

define com perfil e ser

este fulgor baço da terra

que é Portugal a entristecer –

brilho sem luz e sem arder,

como o que o fogo-fátuo encerra.

.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

nem o que é mal nem o que é bem.

( Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

.

É a hora!

nevoeiro

Fernando Pessoa

Luís de Camões
Junho 10, 2013

camoesQuem diz que Amor é falso ou enganoso,
ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
sem falta lhe terá bem merecido
que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piedoso;
quem o contrário diz não seja crido:
seja por cego e apaixonado tido,
e aos homens e ‘inda aos deuses odioso.

Se males faz Amor, em mi se vêem;
em mim mostrando todo o seu rigor,
ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de amor;
todos estes seus males são um bem,
que eu por todo outro bem não trocaria.

Luís Vaz de Camões presume-se tenha nascido em Lisboa por volta de 1524, de uma família do Norte (Chaves). Viveu algum tempo em Coimbra onde, segundo consta, frequentou aulas de Humanidades no Mosteiro de Santa Cruz onde tinha um tio padre. Regressou a Lisboa, levando aí uma vida de boémia. Em 1553, depois de ter sido preso devido a uma briga, parte para a Índia. Fixou-se na cidade de Goa onde escreveu, de acordo com seus estudiosos, grande parte da sua obra. Regressa a Portugal em 1569, pobre e doente, conseguindo publicar Os Lusíadas em 1572 graças à influência de alguns amigos junto do rei D. Sebastião. Faleceu em Lisboa no dia 10 de Junho de 1580. É considerado o maior poeta português, situando-se a sua obra entre o Classicismo e o Maneirismo. Obras: “Os Lusíadas” (1572), “Rimas” (1595), “El-Rei Seleuco” (1587), “Auto de Filodemo” (1587) e “Anfitriões” (1587).

Carta a Sophia
Outubro 14, 2012

CARTA A SOPHIA
OU
O QUINTO POEMA DO PORTUGUÊS ERRANTE

… Querida Sophia: como os índios do seu poema
também eu procurei o país sem mal.
Em dez anos de exílio o imaginei
como os índios utópicos também eu queria
um outro Portugal em Portugal.
Mas quando regressei eu não o vi
como eles me perdi e nunca achei
o país sem mal.

Talvez a própria vida seja isto
passar montanha e mar sem se dar conta
de que o único sentido é procurar.
Como os índios do seu poema eu não desisto
sou um português errante a caminhar
em busca do país que não se encontra.

MANUEL ALEGRE,  em  LIVRO DO PORTUGUÊS ERRANTE

Tristeza
Setembro 26, 2011

Nos dias de tristeza, quando alguém
nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
às vezes, nem sequer nós respondemos:
faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
sabe-se lá donde a tristeza vem?!…
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
pergunte pelo mal de que sofremos…

Mas, quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!…
Ó mistério, que em toda parte existes…

Pois, haverá desgosto mais profundo
do que este de não se ter alguém no mundo
que nos pergunte por que estamos tristes?!

Virgínia Vitorino