O silêncio
Maio 31, 2017

O silêncio dói como pedra na língua.

A vida por vezes não tem esperança nem sentido,

tudo parece em paz e no entanto o amor

tem sempre uma mais fria recompensa.

Desde a primeira flor, pouco ainda mudou

essa face da noite com a face do Homem.

O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta

e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.

O silêncio é de passos que atormentam a noite

e que ao fundo do fogo vão buscar a luz

para fazer arder as horas até ao orvalho

onde a manhã se ri com os dentes da água.

Às vezes vagueia pelo pomar da noite

uma égua perdida numa nesga de luz,

é a dor que pergunta e procura uma casa

junto à erva do peito, sob os olhos calados.

novembro2

Joaquim Pessoa

Felicidades
Maio 25, 2017

não percas tempo
com os fragmentos
jamais refarás
o que se quebrou

tu já não és tu
nada é o que já foi
nada será o que
podia ter sido

há um começo tardio
para um final próximo
é essa a estória do depois

é tarde muito tarde
longe vão as manhãs
só te resta esperar
e reaprender os dias

felicidades
flores 4

A. H. Cravo

Reza da manhã de Maio
Maio 19, 2017

 

Senhor, dai-me a inocência dos animais
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade,
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.

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Sophia de Mello Breyner Andresen.

quando a ternura for a única regra da manhã
Fevereiro 1, 2017

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços.
a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória,
quando o inverno for tão distante,
quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo
e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela.
sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha,
porque eu acordarei nos teus braços
e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra,
para não estragar
a perfeição da felicidade.

sorriso-cumplice

José Luís Peixoto    em     ‘A Criança em Ruínas’

Aos meus companheiros de Angola
Dezembro 14, 2015

Éramos jovens.
Sonhámos um futuro novo.
Estávamos longe de pensar
que o futuro é velho.
Às vezes está em crise
como um bêbado
à procura do seu centro de gravidade.
.
Éramos jovens.
Tínhamos a vida inteira à nossa frente.
Namorámos a manhã
com a alma virada para o mar.
Cultivámos a paixão, o amor,
os beijos, a viagem.
Lutámos contra a opressão,
contra toda e qualquer opressão.
Éramos jovens.
Tínhamos sede de justiça e de luz.
Sonhámos um país diferente,
como um poema cintilante.
Descobrimos que os países ignoram
a gramática da poesia.
Os países são coisas banais, primitivas,
habitadas pelo mal
e o mal mistura-se com o bem.
Líquidos miscíveis,
tudo é mais turvo e mais difícil.
.
Hoje alguns de nós querem reviver tudo,
refundar o passado,
investigar porque falhámos.
Ainda bem que falhámos.
Dormimos tranquilos e sãos.
A nossa alma está limpa e sábia.
.
Éramos jovens
e sonhámos um futuro novo.
Estávamos longe de pensar
que o futuro é velho
e recebe visitas ao fim da tarde.
alegria

António Costa Silva

A companheira
Setembro 19, 2015

Não te busquei, não te pedi: vieste.
E desde que eu nasci houve mil coisas
a que os meus olhos se deram com igual
simplicidade : o Sol, a manhã de hoje,
essa flor que é tão grácil que a não quero,
o milagre das fontes pelo Estio…
Vieste ( o Sol veio também, a flor,
a manhã de hoje, as águas…). Alegria,
mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural
encontro, natural como a chegada
do Sol, da flor, das águas, da manhã,
de ti, que eu não buscara nem pedira.

E o Amor? E o Amor? E o Amor?
-: Vieste.
Wherever

Sebastião da Gama

Ausência
Outubro 6, 2014

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.

mar bravo

Jorge Luis Borges, “Fervor de Buenos Aires” (1923) (tradução de Fernando Pinto do Amaral)

Com palavras
Abril 4, 2014

Com palavras me ergo em cada dia! 
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto 
e saio para a rua. 
Com palavras – inaudíveis – grito 
para rasgar os risos que nos cercam. 
Ah!, de palavras estamos todos cheios. 
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor 
em quatro ou cinco línguas. 
Tomamo-las à noite em comprimidos 
para dormir o cansaço. 
As palavras embrulham-se na língua. 
As mais puras transformam-se, violáceas, 
roxas de silêncio. De que servem 
asfixiadas em saliva, prisioneiras? 
Possuímos, das palavras, as mais belas; 
as que seivam o amor, a liberdade… 
Engulo-as perguntando-me se um dia 
as poderei navegar; se alguma vez 
dilatarei o pulmão que as encerra. 
Atravessa-nos um rio de palavras: 
Com elas eu me deito, me levanto, 
e faltam-me palavras para contar…

silence

Egito  Gonçalves

Todo o tempo é de poesia
Março 5, 2014

Todo  o tempo é de poesia,
desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram,
corolas que se desdobram,
corpos que em sangue soçobram,
vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

 Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

plumaAntónio  Gedeão

X
Março 21, 2013

Bravo pássaro que passaste e passarás

azul, a sul, sob o sólido sol da solidão.

Pássaro dos sentidos, do sentido da vida,

para todo o sempre não é para ti mais que a travessia da noite ao amanhecer.

Mas eu sigo-te, ó senhor de nada, tu que te alimentas de pedacinhos de céu,

irmão de tudo o que em mim também voa e também canta,

timidez emplumada onde brilham as cores dos frutos e do mundo.

.

Aparece, ó pássaro de mim, em mim, poisa

no que resta da minha alegria, nos ramos da minha carne,

e canta, canta de uma forma irreparável

o meu canto e o canto alheio,

o meu grito e a vontade que tenho de chorar.

Com uma força destruidora da virtude,

ultrapassa a luz, ultrapassa o pensamento,

inscreve as minhas interrogações, as minhas dúvidas

na fadiga das horas, escreve com o teu bico celeste

o meu epitáfio, um poema

de amor para a mulher que me prendeu e me fez livre,

a que vive em mim, a que acredita em mim,

a que como tu desafia as manhãs e surpreende a noite,

a minha amada, pássaro, a mulher que eu amo

como os poetas amam a liberdade de alguns pássaros

e de todos os pobres.

.

Joaquim  Pessoa