Na água
Julho 7, 2017

O reflexo da árvore.

Ninguém toca na sua margem.

Permanece. Realidade inteira.

Enquanto a árvore,

ardil dos sentidos,

se desfaz

quando alguém agita

a sua imagem.

Tranquilidade

Pedro Mexia

Anúncios

Port Wine
Março 28, 2014

V.Porto

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Joaquim Namorado

Passagem
Julho 23, 2013

passage

 

Com que palavras ou que lábios

é possível estar assim tão perto do fogo,

e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,

tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,

e não só uma voz de ninguém.

Onde, porém? Em que lugares reais,

tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,

e estamos, se possível, ainda mais sós,

sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e como diremos rios?

À Inês

Manuel António Pina   em    Como se desenha uma casa (Assírio & Alvim)

Metamorfose
Março 14, 2013

fondo-bosque-de-secuoyas

Para a minha alma eu queria uma torre como esta
assim alta ,
assim de névoa acompanhando o rio.
Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.

E contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a chuva estaria
se eu soubesse ter…
na luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.

Jorge de Sena

Im Ernstfall
Julho 31, 2012

Im Ernstfall

ist jeder allein mit sich

und dem verlassenen Kind.

Die Entfernungen

werden größer.

Nur selten einmal

reicht eine Brücke von

einem zum anderen Ufer.

Nur selten ist jemand da

im Ernstfall.

Anne Steinwart

.

Numa situação difícil

cada pessoa está só

como uma criança abandonada.

As distâncias

aumentam.

Só raramente

existe uma ponte

a unir as duas margens.

Só raramente está alguém lá

numa situação difícil.