Sempre que te vais
Junho 11, 2015

Sempre que te vais,

fico sempre mais pobre,

quando ficas é sempre tão cedo.

Dos cigarros mal apagados que ficaram, do suor,

dos lençóis despenteados, das cruzes.

aflitos subimos o muro das ilusões.

Que cobardes que éramos não fosse o amor!

Damo-nos, despimos as máscaras, deixamo-nos à mercê dos deuses.

Brincamos, choramos e ainda temos tempo de ver nascer o dia.

Tu partes, levas-me e eu fico mudo por dentro.

É preciso muita coragem para amar, ver partir,

e voltar a vestir o fato já gasto da civilização!

solslslslsl

Daniel  Dias

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Dei-te os dias
Fevereiro 16, 2015

Dei-te os dias, as horas e os minutos
destes anos de vida que passaram;
nos meus versos ficaram
imagens que são máscaras anónimas
do teu rosto proibido;
a fome insatisfeita que senti
era de ti,
fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
conto as desilusões no rol do coração,
recordo o pesadelo dos desejos,
olho o deserto humano desolado,
e pergunto porquê, por que razão
nas dunas do teu peito o vento passa
sem tropeçar na graça
do mais leve sinal da minha mão…

máscara

Miguel Torga.

Dez réis de esperança
Janeiro 22, 2013

o-exito-da-vidaSe não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão