isto vai
Julho 25, 2011

por noites de insónia e de alcatrão

por laranjais e lábios ressequidos

pelo desespero na voz e escuridão

isto vai caro amigo (…)

pelo cabo axial que liga a nossa esperança

pela luz dos cabelos pelo sal

pela palavra remo pela palavra ódio

isto vai caro amigo (…)

pelos carris do medo pelas árvores

pela inocência e fome pelos perigos

pelos sinais fraternos pelas lágrimas

isto vai caro amigo

pela dureza do espaço

e em jardins falsíssimos

isto vai caro amigo

João Rui de Sousa   Ça ira

Se partires, não me abraces
Maio 22, 2011

Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha vom viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar) ; e o rosto

espia os espelhos à espera que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário  Pedreira

À boca do cântaro
Abril 3, 2011

Caminha sílaba a sílaba

como a fonte

que só pára à boca do cântaro.

Aí consente partilhar a água.

À audácia dos jovens, à timidez

dos que já o não são, mata a sede.

Aos que tropeçam na falta

de amor, aos que mordem as lágrimas

em segredo, dá a beber.

Leva aos lábios febris

a frescura da pedra. Não deixes

o medo multiplicar as garras.

Sílaba a sílaba

caminha até ao cântaro

vazio. – Tão cheio agora!

 

Eugénio  de  Andrade

Pensar em ti
Junho 10, 2010

 

Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória – é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti

E se me lembro mal, se troco às vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas

Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus

Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem

O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes

e lembrar-se
exactamente,
de uma forma correcta

é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais

Ana Luisa Amaral

É urgente
Janeiro 19, 2010

É urgente que as pessoas se amem

sem vergonha e sem tristeza

que se amem com orgulho

com a alegria pagã da joie grega.

É urgente que as pessoas não se escondam

por detrás de outras pessoas

das ideias de outras pessoas

dos muros expressos do medo.

É urgente que as pessoas se amem.

É urgente partilhar o pão e o corpo

com a claridade da terra molhada

nas manhãs de sol.

É urgente assumir a verdade.

 

Manuela Amaral

Da maneira mais simples
Outubro 20, 2009

fogo

É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode

acontecer da maneira mais simples :

umas gotas de chuva no cabelo.

Aproximas a mão, os dedos

desatam a arder inesperadamente,

recuas de medo. Aqueles cabelos,

as suas gotas de água são o começo,

apenas o começo. Antes

do fim terás de pegar no fogo

e fazeres do inverno

a mais ardente das estações.

 

Eugénio de Andrade

Não sei
Setembro 8, 2009

Que faço eu aqui, enquanto espero

que uma andorinha rápida me traga

a resposta dos deuses, que procuro?

Que faço eu aqui, se eles falharem

a minha esperança e me recusarem

a ajuda, o conselho, o abrigo?

Talvez tudo isto seja ilusório,

talvez eu saiba já o que fazer,

mas tenha medo de o assumir…

Talvez esteja já no firmamento

escrita a resposta que procuro,

e eu não saiba ou não queira ver…

estrelas

Diana Sá

Como eu gostaria
Abril 10, 2009

Como eu gostaria

de viver entre pessoas

que há muito deitaram fora

a  fechadura do seu coração

e  respiram livremente.

……

Seria bom

podermo-nos encontrar

sem medo e sem máscaras,

reconhecermo-nos

desde o primeiro momento,

termos de falar pouco,

porque  as  almas  se oferecem

umas às outras

em

amizade1

silêncio.

Hans Kruppa

Três coisas
Fevereiro 8, 2009

borboleta

De tudo ficam três coisas :

a certeza de que estamos sempre começando…

a certeza de que precisamos de continuar…

a certeza de que seremos interrompidos

antes de terminar…

.

Portanto devemos :

fazer da interrupção um caminho novo…

da queda, um passo de dança…

do medo, uma escada…

do sonho, uma ponte…

da procura, um encontro…

.

 Fernando Pessoa

F.P.
Dezembro 3, 2008

De tudo ficam três coisas:

a certeza de que estamos sempre começando…

a certeza de que precisamos de continuar…

a certeza de que seremos interrompidos

antes de terminar…

………

Portanto devemos

fazer da  interrupção um caminho novo…

da queda um passo de dança…

do medo uma escada…

do sonho uma ponte…

da  procura, um encontro…

aves

 Fernando Pessoa