Chuva da tarde
Outubro 7, 2015

Chuva da tarde, – melodia mansa,

desejos vagos de chorar baixinho…

Voltei aos meus caprichos de criança,

– só quero, Amor, saber do teu carinho!

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Chuva da tarde… Na poeira ardente

cai um frescor inesperado e calmo.

É um frescor que purifica a gente

– como a leitura mística dum Salmo!

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Floresçam jasmineiros e açucenas,

– acuda-se à tristeza das raízes!

Que tu, Amor, com tuas mãos pequenas,

as guardes da estiagem e as baptizes!

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Meu coração doente remoçou-se,

quando o tocaram essas mãos piedosas…

Chuva da tarde, – enfermaria doce,

onde vão convalescer as rosas!

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Chuva da tarde… Ao longo das varandas

reza mistérios lentos a noitinha.

Que bem não é sonhar em coisas brandas,

nas tuas brandas asas de andorinha!

.

Deixa que a sombra te emoldure a face,

– eleva no silêncio a tua voz!

O Cântico dos Cânticos renasce,

– diria até que se escreveu p’ra nós!

chuva

António Sardinha

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Chorosos versos meus
Maio 13, 2014

Chorosos versos meus desentoados,

sem arte, sem beleza e sem brandura,

urdidos pela mão da Desventura,

pela baça tristeza envenenados.

.

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

no mundo esquecimento, a sepultura;

se os ditosos vos lerem sem ternura,

ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

.

Não vos inspire, ó versos, cobardia

da sátira mordaz o furor louco,

da maldizente voz a tirania.

.

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

que não pode cantar com melodia

um peito, de gemer cansado e rouco.

Bocage

Bocage

Beleza
Março 19, 2014

Porto

Entrei no café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira