Sete
Junho 6, 2017

Pelas sete da tarde

é que o sonho começa:

a tua mão na minha

e a minha cabeça

encostada ao teu ombro.

Depois é o assombro

do amor reencontrado

a sós no nosso canto.

O silêncio e o espanto

a paixão o segredo

a recusa do medo

o meu falar alegre

o teu livro tão sério

a música tão leve

o instante tão breve

o sono e o mistério.

.

Às sete da manhã

é que o sonho termina.

E afrontamos o dia

a tua mão na minha

um trejeito na alma

um tremido na boca

até que a multidão

me leva e me sufoca

e nos desprende e solta

os meus dedos nos teus.

.

Há um barco que chega

um comboio que chora.

Num mar de gente à deriva

eu náufraga da hora

ergo um braço no ar

p’ra te dizer adeus.

beijinho

Rosa Lobato de Faria

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Fui sabendo de mim
Agosto 27, 2013

Fui sabendo de mim

mia couto

por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, em “Raiz de Orvalho e Outros Poemas

Tristeza
Setembro 26, 2011

Nos dias de tristeza, quando alguém
nos pergunta, baixinho, o que é que temos,
às vezes, nem sequer nós respondemos:
faz-nos mal a pergunta, em vez de bem.

Nos dias dolorosos e supremos,
sabe-se lá donde a tristeza vem?!…
Calamo-nos. Pedimos que ninguém
pergunte pelo mal de que sofremos…

Mas, quem é livre de contradições?!
Quem pode ler em nossos corações?!…
Ó mistério, que em toda parte existes…

Pois, haverá desgosto mais profundo
do que este de não se ter alguém no mundo
que nos pergunte por que estamos tristes?!

Virgínia Vitorino

É loucura
Janeiro 18, 2011

O amor

é uma utopia criada por um louco qualquer

num momento de desvario.

Luís Ventura

Que direi eu…
Outubro 28, 2010

Que direi eu de ti, de mim, de nós,

o imenso inacabado que nos perde…?

Que te espero nos dias que se afundam

em noites inquietas, solitárias…

 

Eu sei que o infinito imaginado

nada é mais do que isso, horas mortas,

suspensas no mistério dos minutos,

perdidas no horizonte insondável…

 

Sou um imenso campo aberto ao sol,

à neve, às intempéries do presente.

Tu ficas no recôndito sombrio,

escondes-te na letra de um poema…

Diana Sá

Fluidez
Julho 16, 2010

Nada é imutável.

Tudo é mutável.

Tudo é transformação.

O Ser é o vector da cadência,

a entidade fluida

no irradiar do multiverso.

Nada é impossibilidade.

Tudo é possibilidade.

Tudo é evolução.

Vicente Ferreira da Silva

Proclamação
Julho 3, 2009

A natureza não desce

a contratos. Nem a vida

se mede pela razão.

A vida é toda mistério.

Quem largamente se deu

não ofendeu a justiça

mas viveu do coração.

cascata

Ruy Cinatti

 

Compreender
Junho 19, 2009

É triste não compreender.

Mais triste ainda é não obter uma explicação.

Vida, por que és tão complicada?

Quando escondes as tuas cartas,

imagino histórias e histórias de angústia,

entrego-me ao correr da intuição

transformada em pesadelo…

angústia

Não sei o que se passa.

E tu não queres que eu saiba.

Queres que eu continue a mendigar respostas…

 

Diana Sá

Palavras 2
Março 18, 2009

pessoa4webxlNão sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

…….

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê  é  só o que vê,

quem sente não é quem é.

…….

Atento ao que sou e vejo,

torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

é do que nasce  e  não meu.

…….

Sou minha própria paisagem,

assisto à minha passagem,

diverso, subtil  e  só,

não sei sentir-me onde estou.

…….

Por isso alheio, vou lendo

como páginas o meu ser.

O que segue não prevendo,

o que passou a esquecer.

…….

Noto à margem do que li

o que julguei que senti.

Releio e digo : “Fui eu?”

Deus sabe,porque o escreveu.

…….

 Fernando Pessoa

Poema do Português errante
Março 12, 2009

Por um caminho à noite caminhava

caminhava de noite sem sentido

pela própria cadência era levado

caminhava movido por um ritmo

a música interior que mais ninguém

ouvia. Caminhava de noite e não sabia

sequer o rumo e o sentido. Nem

a rosa dos ventos e os pontos cardeais

nem Cruzeiro do Sul nem bússola nem estrela.

Caminhava por caminhar. Apenas

por um íntimo impulso, um movimento

irreprimível do seu próprio pensamento.

Ou nem sequer. Talvez não fosse

senão a própria marcha. Um corpo

avante. Um corpo em seu mistério caminhante

não mais que um corpo em marcha no caminho

ninguém sabe se certo se perdido.

E só se ouvia o som do seu arfar

e  não havia aliás outro sentido

senão o de caminhar por caminhar.

man_down_the_road_by_goldenso

 Manuel Alegre