Lembra-te
Maio 18, 2019

 

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

flor amarela

Mário Cesariny de Vasconcelos    em   “Pena Capital

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Mundo das Ideias
Setembro 10, 2018

Se a minha luz não te possui ao meio-dia,

também não tem a tua sombra,

é este o momento

em que mais te procuram

os cavalos intrépidos,

e eu nem tenho um poema.

.

Sem amor,

vemos apenas as sombras das outras pessoas,

só o amante vê a sua amada

ao meio-dia,

ma hora do esquecimento,

e eu vi-te a ti

com o sol no seu zénite.

.

Não tenhas medo do amor,

minha amada,

não temas a impulsividade

dos cavalos intrépidos,

a única luz que não traz sofrimento

é a do sol no seu zénite,

porque a estrela íntima

não se reflecte em sombras

ao meio-dia.

sol 1

Joel  Henriques

Abraça-me
Agosto 8, 2018

Abraça-me.

Quero ouvir o vento que vem da tua pele,

e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti,

nada existe a não ser este relâmpago feliz,

esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos,

e que ambos mordemos para provar

o sabor que tem a carne incandescente das estrelas.

.

Abraça-me.

Veste o meu corpo de ti,

para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos,

o sentido da vida.

Procura-me com os teus antigos braços de criança,

para desamarrar em mim a eternidade,

essa soma formidável de todos os momentos livres

que a um e a outro pertenceram.

.

Abraça-me.

Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,

para que possa levá-la comigo

e oferecê-la aos astros pequeninos. 
Só essa água fará reconhecer o mais profundo,

o mais intenso amor do universo,

e eu quero que delem fiquem a saber

até as estrelas mais antigas e brilhantes. 

.
Abraça-me.

Uma vez mais. Uma vez só.

.

Uma vez que nem sei se tu existes.

 


Joaquim Pessoa    em   Ano Comum

No meu país
Agosto 3, 2016

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

O Português paga calado cada prestação

Para banhos de sol nem casa se precisa

E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa

e o colégio do ódio é patriótica organização

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe

atenta à gravidade do momento

Ruy Belo

  Morte ao Meio-Dia

Amigo
Abril 16, 2015

Procura-se um amigo que me acompanhe até ao fim,
que una nossos caminhos, quando opostos.
Não precisa gostar dos mesmos gostos,
mas que goste de mim.

Preciso de um amigo para partilhar meus momentos,
que se envolva em meus pensamentos
e se comova, quando chamado de amigo.

Que me diga, eu sei que estás errado.
De qualquer forma, estou ao teu lado.
Vou contigo.

Preciso de um amigo que me desprenda da corrente,
que reviva comigo o passado,
sem nunca esquecer o presente.

Um amigo, que faça do longe, perto.
Capaz de atravessar o deserto
só para me ver contente.

Que quando morto, me faça renascer.
Que me ajude a ganhar, em vez de perder.
Que olhe pr’além do seu umbigo.

Que me abrace apertado, sem qualquer medo.
Que se sente do meu lado, que guarde um segredo.
Que goste de mim, que me chame de Amigo.

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José Carlos SC

Momentos escuros
Janeiro 28, 2014

Em meus momentos escuros
em que em mim não há ninguém,
e tudo é névoas e muros
quanto a vida dá ou tem,
.
se, um instante, erguendo a fronte
de onde em mim sou aterrado,
vejo o longínquo horizonte
cheio de sol posto ou nado
.
revivo, existo, conheço,
e, ainda que seja ilusão
o exterior em que me esqueço,
nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

 

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Fernando Pessoa

(Artes & Poesias)

Devagarinho
Dezembro 29, 2012

Passemos, tu e eu, devagarinho,
sem ruído, sem quase movimento,
tão mansos que a poeira do caminho
… a pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, em torvelinho
de folhas arrastadas pelo vento,
saibam beber o precioso vinho,
a rara embriaguez deste momento.

E, se a tarde vier, deixá-la vir…
E, se a noite quiser, pode cobrir
triunfalmente o céu de nuvens calmas…

De costas para o sol, então veremos
fundir-se as duas sombras que tivemos
numa só sombra, como as nossas almas.

REINALDO FERREIRAem  POETAS DE MOÇAMBIQUE

Hoje
Novembro 12, 2012

Hoje não sei do que sou capaz.

.

Às vezes não procuramos respostas.

Outras, não conseguimos vê-las.

.

De vez em quando a inteligência deixa-nos

como um cônjuge saturado, incapaz de nos suportar.

Mas temos obrigação de viajar

espreitando pelas janelas da água, pelo postigo da indulgência,

espalhar pela distância o embaraço

de modo a regressar felizes como crianças exibindo

troféus coloridos de algodão de açúcar.

.

Disputamos muitos jogos num estádio vazio

desperdiçando as mais flagrantes oportunidades,

porque aceitamos como normal o medo de vencer.

E no entanto todos os momentos são bons

para escutar o mar ou palmilhar desertos

com uma candeia ou com um sol por companheiros

que possam ajudar-nos a dissipar o conjunto das sombras

e, na dúvida, reconhecer a forma das coisas,

as que nos pertencem e as que nunca serão nossas

mas que queremos nossas por não nos pertencerem.

.

O que puderes tocar, tenta alcançá-lo.

O que não puderes saber, não ignores.

Constrói a casa em pleno mar.

Percorre a estrada em pleno voo.

Joaquim  Pessoa em   O Pouco é para Ontem

Entre querer e poder
Novembro 21, 2011

 Entre querer e poder

há apenas uma imensidão de lagos transparentes
de silêncios e verdades
de hesitações
Entre querer e poder há um tempo
que se fechou em armários
entre fotografias e verdades
Entre querer e poder há uma lei
inexorável
a lei do tempo
de papéis velhos sem cores nem rei
dos restos do momento
Entre querer e poder
há uma imensidão de lagos transparentes
e um lamento

Raul Cordeiro

Soneto de Fidelidade
Julho 17, 2011

De tudo ao meu amor serei atento
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive,
quem sabe a solidão, fim de quem ama,

eu possa me dizer do amor (que tive):
que não seja imortal, posto que é chama,

mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Morais