Livro de Horas
Maio 7, 2017

Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,
e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
de ter raízes no chão
esta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal Céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!


Miguel Torga
, em ‘O Outro Livro de Job’

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Abril 9, 2012

Quem fez ao sapo o leito carmesim

de rosas desfolhadas à noitinha?

E quem vestiu de monja a andorinha,

e perfumou as sombras do jardim?

.

Quem cinzelou estrelas no jasmim?

Quem deu esses cabelos de rainha

ao girassol? Quem fez o mar? E a minha

alma a sangrar? Quem me criou a mim?

.

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?

Santa Teresa em místicos arroubos?

Os monstros? E os profetas? E o luar?

.

Quem nos deu asas para andar de rastros?

Quem nos deu olhos para ver os astros

– sem nos dar braços para os alcançar?

Florbela  Espanca

Fundo do mar
Agosto 11, 2011

No fundo do mar há brancos pavores,
onde as plantas são animais
e os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
a agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
no desalinho
dos seus mil braços,
uma flor dança,
sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen – Obra Poética I