Mecânica de um abraço
Julho 11, 2019

O que encerras num abraço quando
abraças alguém não é
um corpo: é o tempo. Nesse demorar suspenso
(enquanto deténs outra vida) há
um corpo que é teu enquanto o reténs
nos braços
(porquanto o tens para ti
suspendendo o movimento)
enquanto páras o tempo pelo
tempo
de um abraço. Mas a
força dos teus abraços é mais fraca
que a do tempo e
tens de ser tu a ceder
(tens de ser tu a largar) porque
o tempo não aceita estar parado tanto tempo e
exige que o soltes para
tornar ao movimento.

abraco1

João Luís Barreto Guimarães    em   Nómada

O resgate
Abril 25, 2017

Alegria por vezes dispersiva
quem a tem não a tinha tido antes,
quando os homens falavam, hesitantes,
da liberdade ausente e sempre esquiva.
.
Uma alegria cristalina e viva
com belos movimentos ondulantes
de rios bravios, de multidões vibrantes,
que levam as derrotas à deriva.
.
Derrocada dos donos e senhores,
na hora justa que explode em flores,
no resgate de tantos desenganos.
.
Alegria, alegria, tu nos levas
contigo, e atrás de ti ficam as trevas,
as trevas temerosas dos tiranos.

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Sidónio Muralha

Devagarinho
Dezembro 29, 2012

Passemos, tu e eu, devagarinho,
sem ruído, sem quase movimento,
tão mansos que a poeira do caminho
… a pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, em torvelinho
de folhas arrastadas pelo vento,
saibam beber o precioso vinho,
a rara embriaguez deste momento.

E, se a tarde vier, deixá-la vir…
E, se a noite quiser, pode cobrir
triunfalmente o céu de nuvens calmas…

De costas para o sol, então veremos
fundir-se as duas sombras que tivemos
numa só sombra, como as nossas almas.

REINALDO FERREIRAem  POETAS DE MOÇAMBIQUE

Já não vivo, só penso
Novembro 11, 2011

Já não vivo, só penso. E o pensamento

é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Fernanda de Castro, em “E Eu, Saudosa, Saudosa”