Soneto do Corifeu
Julho 25, 2019

São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão, principalmente,
quando uma lua surge de repente
e se deixa no céu, como esquecida.
.
E se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer,
aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher.
.
Deve andar perto uma mulher que é feita
de música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.
.
Uma mulher que é como a própria Lua:
tão linda que só espalha sofrimento,
tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

A mulher mais bonita do mundo
Maio 12, 2019

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luis Peixoto

Femme
Março 8, 2019

 

 

 

 

 

 

 

Femme, j’ai tant de choses à te dire,
Qu’il me faudrait un livre pour l’écrire.
Une vie ne suffit pas, et encore plus de temps,
Car tu portes en toi tout ce que je ressens.
Femme tendresse, femme douceur,
Femme tempête, femme douleur,
Il me faudrait tout le dictionnaire
Pour parler de toi, en rimes et en vers.
.
Tu es le commencement et la fin.
Tu es l’aboutissement, soir et matin.
Tu es l’émotion, la finesse, la vie.
Tu es tout ce que je ne suis pas, je t’envie.
Tu es l’avenir de l’humanité,
Car tu portes en toi l’éternité.
.
Femme d’amour, tu donnes la vie.
Femme de cœur, tu donnes l’amour.
Femme sensible, fragile, forte,
J’attends tout de toi, ouvres-moi ta porte.
Fais-moi une place dans ton cœur.
Offre-moi tout de toi et plus encore.
Femme battue, maltraitée,
.
Femme outragée, mal aimée,
J’aimerais tant te protéger,
Pour pouvoir tout te donner.
Femme courage, tu es admirable.
Femme aimable, tu es remarquable.
.
Tu es, parfois, imprévisible, charmante,
Tellement troublante, émouvante.
Femme au regard si doux, si profond,
Je me plonge dans tes yeux jusqu’au fond,
Recherchant l’insondable, l’innommable.
S’il t’arrive de pleurer, je me sens minable.
Femme, ces colères que je redoute
Lorsque tes yeux lancent des éclairs,
.
J’apprécie pourtant, lorsque tu doutes,
Ton émotion, quoi qu’il t’en coute.
Femme, du fond de ma solitude,
J’ai besoin de ta sollicitude,
.
De ta douceur, de tes caresses,
De ton affection et de ta tendresse.
Femme heureuse, complice de mes bonheurs,
Femme amoureuse, tu supportes mes humeurs.
Et lorsque surviennent orage et malheur,
Tu gémis, tu souffres… pire tu pleures.
.
Femme tu me désarmes,
Alors je rends les armes.
Sans toi je l’avoue, je ne suis rien.
Tu le sais, de toi j’ai tant besoin.
Dis-moi encore qui es-tu ?


( auteur inconnu , texte qui traîne sur le net )

Fadette Aiache

 

 

 

Os ombros suportam o mundo
Novembro 18, 2018

anjo

Os ombros suportam o mundo.
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos…

…Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Balada
Junho 18, 2018

Amei-te muito, e eu creio que me quiseste
também por um instante nesse dia
em que tão docemente me disseste
que amavas ‘ma mulher que o não sabia.

Amei-te muito, muito! Tão risonho
aquele dia foi, aquela tarde!…
E morreu como morre todo o sonho
deixando atrás de si só a saudade! …

E na taça do amor, a ambrosia
da quimera bebi aquele dia
a tragos bons, profundos, a cantar…

O meu sonho morreu… Que desgraçada!
E como o rei de Thule da balada
deitei também a minha taça ao mar …
florbelaespanca.thumbnail

Florbela EspancaTrocando olhares – 08/08/1916

Vieste como um barco carregado de vento
Novembro 28, 2017

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

mar 4

Maria do Rosário Pedreira    em    ‘O Canto do Vento nos Ciprestes’

Pequeno ensaio sobre coisificação
Março 22, 2016

E tu que és mulher de corpo inteiro,

quiçá fisicamente apelativa,

como pede e cobiça, sobranceiro,

quem pretende explorar-te, em carne viva

(condição do anúncio que sugere,

para quem se quiser candidatar,

que seja bem mais coisa que mulher,

um objecto pronto a funcionar),

tu que sendo quem és, ao fim e ao cabo,

se queres que tratem com decoro,

pois não vendes a alma ao diabo

nem toleras abuso ou desaforo,

contesta, replica, repudia

quem assim te abocanha e avalia.

meu príncipe

Domingos da Mota

Tu vinhas
Dezembro 8, 2015

Não me fizeste sofrer
mas esperar.

Naquelas horas
emaranhadas, cheias
de serpentes,
quando
a alma me caía e eu me afogava,
tu vinhas-te aproximando,
tu vinhas nua e arranhada,
tu chegavas ensanguentada ao meu leito,
noiva minha,
e então
caminhávamos toda a noite dormindo
e, quando acordávamos,
estavas intacta e nova,
como se o vento grave dos sonhos
acendesse de novo
o fogo da tua cabeleira
e em trigo e prata submergisse
teu corpo até torná-lo deslumbrante.

Eu não sofri, meu amor,
esperava-te apenas.
Tu precisavas de mudar de coração
e de olhar
depois de tocares a profunda
zona do mar que meu peito te entregou.
Precisavas de sair da água
pura como uma gota erguida
por uma onda nocturna.

Noiva minha, tu precisaste
de morrer e de nascer, eu esperava-te.
Não sofri a procurar-te,
sabia que virias,
mas outra, com o que adoro
da mulher que não adorava,
com teus olhos, tuas mãos e tua boca,
mas com outro coração,
que amanheceu a meu lado
como se sempre tivesse estado ali
para continuar comigo para sempre.

mulher-caminhar
Pablo Neruda, em “Os Versos do Capitão“.

Seja cuidadoso
Julho 12, 2015

charles-bukowski

Não são as grandes coisas que levam um homem ao manicómio.
A morte está à espreita.
Ou o assassinato, incesto, roubo, fogo, inundação.
Não.
É uma contínua série de pequenas tragédias.
É o que leva um triste homem ao manicómio.
Não é pela morte de seu amor…
mas um cordão que se rompe sem tempo restante.
Com cada cordão rompido,
entre centenas de cordões rompidos,
um homem, uma mulher, uma coisa entra no manicómio.
Então seja cuidadoso quando virar a esquina.

Charles Bukowski

É por ti
Junho 5, 2014

É por ti  que eu escrevo que não és musa nem deusa

mas a mulher do meu horizonte

na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia

Por ti desejo o sossego oval

em que possas identificar-te na limpidez de um centro

em que a felicidade se revele como um jardim branco

onde reconheças a dália da tua identidade azul

É porque amo a cálida formosura do teu torso

a latitude pura da tua fronte

o teu olhar de água iluminada

o teu sorriso solar

é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte

nem a túmida integridade do trigo

que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis

para a oferenda do meu sangue inquieto

onde pressinto a vermelha trajectória de um sol

que quer resplandecer em largas planícies

sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

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António Ramos Rosa